Um crime, praticado em Santiago, em 1930, está dividindo opiniões dos intelectuais santiaguenses e da região. A matéria, aliás, seria um prato cheio para os estudantes de Direito da nossa faculdade, afinal o que se debate é a inocência ou a culpa de um homem.
Em seu livro “Páginas Impossíveis”, Oracy Dornelles abre uma discussão interessante sobre o assassinato do Russo. Friso que a mesma matéria constante do livro, já havia sido publicada nas páginas do Jornal A Hora, anos antes.
Mas vejamos o que diz Oracy Dornelles:
“...No ano de 1930 houve um crime bárbaro aqui em Santiago. Três estrangeiros, dois alemães, Hermann Senn e Joseph Küller, e um “russo”, o Minardi, assaltaram e mataram duas pessoas, pai e filho, sendo o pai um abastado fazendeiro e proprietário de muitas terras neste município.
Perseguidos pela polícia, o “Russo” foi morto a tiros, e os outros dois, Hermann e Küller, foram presos e julgados. Condenados pelo júri, vieram a morrer, mais tarde, na Casa de Correção de Porto Alegre.
Hermann e o outro não falavam português. Este ditou sua “defesa” em francês, o tradutor foi José Piva. Colocaram, eles, Hermann e Küller, a culpa em Minardi, o Russo, que estava morto e não podia defender-se. Onde está a prova de que foi o russo que matou os santiaguenses? Não poderia ter sido Hermann ou Küller? Lógico, era mais fácil colocar a culpa toda em quem já estava morto...E assim foi feito. Mas os jurados não acreditaram na versão dos dois assaltantes, basta dizer que foram julgados e condenados!!!
Passaram-se 76 anos...(hoje não 79).O povo, sempre o povo, dado à judiaria imposta ao cadáver do Russo, pisoteado, cuspido, enterrado nu, no cemitério local, o povo começou a julgar melhor esse lamentável fato. Faziam promessas à alma desse desprezado. E o mais fantástico: eram atendidas as promessas feitas. Depois vieram placas de agradecimento, gravadas: louças afixadas à sepultura por “graças recebidas”, etc.
O Russo foi morto pelo sr. Leopoldino Soares Paula (Dica Soares), a tiros de revólver calibre 38, de tocaia. Veio tornar-se mais tarde abastado fazendeiro. Foi a júri, defendido pelo Dr. Dario Beltrão, e absolvido. O Russo estava com fome, estava numa lavoura de milho, comendo milho verde, (cru, naturalmente). Na ocasião sua boca estava cheia de grãos de milho...Por isso é que até hoje se observa em seu túmulo, oferendas de espigas de milho verde...
Muitos desses que tombaram na violência e na indisciplina, por um processo estritamente místico e devocional, transformaram-se em repositórios da abnegação e do louvor populares.
Os tempos melhoraram, mas ainda notamos resquícios da primitiva crueldade do povo. Inventar um fantasma, ou um santo, é um magnífico recurso para dar-se vazão aos truncados problemas do espiritualismo, ou da parapsicologia, como queiram, que povoam o labirinto misterioso da nossa mente, pois possuímos, mesmo, faculdades extraordinárias nunca dantes exploradas. Bem disse Eliphas Levi em seu “Dogma e Ritual de Alta Magia”: “o homem é o taumaturgo da terra, e pelo seu verbo, isto é, pela sua palavra inteligente dispõe das forças fatais”.
Conclusão: um joão-ninguém poderá transformar-se num milagreiro, mas um latifundiário nunca chegará a ser santo”.Esses trechos transcritos estão nas páginas 12 e 13 do Livro de Oracy, Páginas Impossíveis.
A discussão levantada em Santiago é puramente ideológica. Oracy levantou as hipóteses. Tempos depois, o jovem Fábio Monteiro tratou o russo como um santo popular. Contra isso, insurgiu-se o Froilan Oliveira, negando todo o contexto, inclusive de santidade.
As opiniões logo dividiram-se. Embora ninguém diga e todos neguem, mas a esquerda ficou de um lado e a direita de outro. Esse crime e esse conflito ideológico refletem bem a extensão da luta de classes. Mas a questão teve um outro ingrediente: misticismo e espiritualismo. E virou um caldeirão explosivo.
Ao dizer que “um joão-ninguém poderá transformar-se num milagreiro, mas um latifundiário nunca chegará a ser santo”, Oracy Dornelles deu uma sentença definitiva, puramente ideológica e classista. É sempre bom lembrar que nos anos 50 Oracy foi ligadíssimo ao Partido Comunista e a URSS.
É claro que ao pegar o gancho, Fábio Monteiro percebeu que servia aos interesses da juventude socialista esse processo místico que é também demarcador do conflito de classes na região.
Sinceramente, não sei qual foi à intenção de Froilan Oliveira ao entrar no debate. Num primeiro momento, pareceu-me que combatia o misticismo, visto que sua posição é conhecida. Mas, por outro lado, seus argumentos acabaram servindo aos interesses das oligarquias rurais e seus defensores, foi o que percebi.
Minha mãe nasceu ali no Rincão dos Soares, seu nome de solteira era Jandira Soares de Lima, de notório parentesco com Dica Soares, conhecido por matar o Russo. Mas, no mesmo artigo, vi uma citação a outro parente meu, o Ranchão, bandido conhecido. Na página 11, Oracy cita ... “grandes e corajosos bandidos, como Alziro Fão, Rosa Tavares e Ranchão.
Minha mãe tinha, a rigor, 4 descendências, Chaves, Soares, Viana e Lima. Cresci-me ouvindo Dona Jandira contar as histórias do Ranchão, de quem ela foi amiga e parente. Por extensão genética, eu sou parente de Ranchão e também do Senhor Dica Soares. Tudo, pelo lado materno.
Em 1986, nas férias de janeiro, fui até o apartamento do amigo Tarso Genro, conversar com seu irmão, Adelmo Genro Filho. Conheci o Adelminho, em Santiago, em 1982, e ficamos amigos. Era jornalista. Mas essa minha visita ao Adelminho, no verão de 1986, tinha um objetivo bem definido. Ele estava coletando informações para escrever sobre Ranchão, Alziro Fão, Rosa Tavares e o nosso Russo. É claro, boa parte de tudo já havia lhe sido passado por seu pai, Adelmo Simas Genro. Mesmo assim, tive oportunidade de contar a ele algumas das histórias que conheci dos relatos orais de minha mãe. Nunca me esqueci desse encontro porque sua companheira, a Gláucia, fumava charutos cubanos e infestava a sala da casa da Dona Sandra e os visitantes com aquele cheirinho nada agradável. Mas, fazia parte, à época.
Creio que Adelmo havia percebido um conteúdo ideológico na bandidagem da época e daí seu interesse.
A propósito, esse assassinato dos membros dessa família santiaguense e o do “russo”, quer queiramos, quer não, tem um importante componente ideológico e histórico. Até hoje não se sabe quem eram os senhores Hermann e Küller. Eram alemães, certo. Mas o que faziam aqui, se sequer falavam português. E pela história dos autos do processo, nota-se que Hermann falava francês fluentemente a ponto de expor toda sua defesa nessa língua.
Em algumas coisas concordo com Oracy. Não existem provas de que foi o Russo quem matou pai e filho de um família santiaguense. Pode ter sido ele, como ter sido Hermann ou Küller. Ou ambos, ou os 3 juntos? Temo que nunca saberemos isso.
Noutra coisa estou de acordo com Oracy: o túmulo do russo é alvo de constantes manifestações de fé. Basta entrar no cemitério e ver. Seu túmulo é cheio de placas, símbolos, oferendas, isso é uma verdade irrefutável. Daí discutir se existem milagres e graças alcançadas, vai um abismo. Particularmente, não acredito em nada disso. Mas que a fé das pessoas tem gerado tais manifestações, isso tem.
A grande questão que aflora disso tudo é se a Terra dos Poetas vai ser também conhecida como a terra de um santo milagreiro, italiano, que ficou conhecido como russo e morto por ser acusado de banditismo. E que – segundo consta – também foi assassinado em condições bastante cruéis, posto que ainda foi trazido vivo para a cadeia de Santiago, onde gemia (dizem os relatos) e lhe foi negado assistência, sendo que morreu estendido num madeirão, como se a sociedade se vingasse da morte de seus integrantes ilustres, deixando-o morrer a míngua. E mais, pateticamente enterrado nu, sem direito a flores e velas, como os ritos cristãos de despedida.
Não vejo problemas em as pessoas acreditarem nos milagres do russo e no atendimento dos pedidos que fazem ao redor do seu túmulo. Se os pedidos são atendidos, é o que conta. Afinal, pedidos são feitos a entidades metafísicas diariamente, em terreiras, em igrejas, em cemitérios...E para povoar ainda mais o folclore popular, que bom que esse italiano fosse mesmo um santo. Afinal, temos poetas de mais e santos de menos. Devoções mesmo, a ponto de vermos manifestações explícitas de fé, que me perdoem as elites e intelectuais de Santiago, mas só vejo isso no túmulo do Russo.
E , por fim, quem decide o que é santo ou não, é o juízo subjetivo de cada um de nós. Embora algumas instituições arroguem-se, do alto, o direito de impingir-nos conceitos prontos e acabados, definições conceituais e tudo mais. Mas vejam como é a vida, a igreja católica ta cheia de santos, mas o povo prefere fazer oferendas e promessas para o russo, lá no cemitério.
Essa é a opinião de um ateu.