quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nós, os omissos


Esse caso da gripe suína faz emergir o perfil acomodado, covarde e cínico da nossa relação com os direitos da cidadania. Aqui em Santiago o pavor campeia solto; entretanto, estamos inertes, atados, assistindo passivamente a ampliação de um quadro geral de desconforto na saúde pública. O que aconteceu era previsto, o surto cresceu, assustou e está aí. Se depender da evolução do quadro, pessoas ainda vão morrer e todos nós, cinicamente, vamos chorar e culpar o destino.

Que me perdoem os deístas, mas é tudo tão simples. É apenas uma questão de prioridade política, de decisão, aliás, de peso político. E isso parece que estamos perdendo feio. Para quem as pessoas gritam, hoje, exceto para Deus? Gritam e podem continuar gritando. O susto e o pavor só encontram eco na disseminação da doença. O atraso é uma estupidez. Ainda hoje, com todo esse quadro de pandemia, sequer temos testes eficazes para distinguir alhos de bugalhos. Se são tênues os limites que separam a gripe comum da suína, que tivéssemos testes eficazes capaz de identificar uma e outro. E pronto. Mas não. Pessoas com gripe suína não estão sendo tratadas adequadamente, posto que não existe sequer um processo científico correto de identificação com grau de certeza. Começa por aí o caos e a baderna.

Que os tolos aceitem isso, tudo bem, aí estão os tolos pra tudo, que acreditam em sessões de horóscopos, charlatanismo político e tudo mais. Mas e a parcela crítica, que sabe que isso é apenas uma questão de saúde pública e de adoção de medidas preventivas que não foram tomadas?

Não podemos aceitar um raciocínio tosco que nos jogue aos anos 60 ou 70. Hoje, com toda a modernidade científica e tecnológica nas áreas médica e de saúde, Santiago, por exemplo, deveria dispor de testes imediatos para saber se a pessoa é portadora de gripe suína ou não. Mas, já que isso parece ser um abismo entre a realidade e a prática, por que não temos sequer remédios eficazes à disposição da população?

Pensar que em plena era nuclear, do domínio extremado da física, da química, da biologia, dos incríveis avanços na telemática, em suma, não temos sequer remédios para um surto de gripe. E ainda dizem que vacinas só em 2010. Até lá que morram todos como as vacas, em décadas passadas, à espera da cura de brucelose.

É uma pena que todos nós, da imprensa, não nos unamos numa corrente crítica e cricri para exigir soluções imediatas.

Vejam essa reflexão do Pastor Martin Niemöller, de 1933.


Ontem eles vieram e levaram meu vizinho, que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;

já não havia mais ninguém para reclamar.


Acaso não está acontecendo o mesmo com a gripe suína e nossa omissão? A moradora de
ontem, estava grávida. A de hoje, era da Bonatto, e a de amanhã?

Cidadania, nesse momento, é exigir respostas imediatas das autoridades, chega de balela e lero-lero.