São 6 horas e 31 minutos dessa quarta-feira. Há instantes, assistia ao noticiário manhã do SBT e noto com as notícias se repetem; e o apartamento de Romário que vai a leilão está em todas. Não sei que critérios os produtores de programas de TVs usam para valorar um fato sobre outro. Nunca consegui me afeiçoar à TV e a cada dia mais me afasto da telinha. Em algumas tardes, costumo sentar na frente da TV com o controle remoto às mãos, fico experimentando canais. Na entendo de onde vem tanta mediocridade; é a jovem que aceita beijar o lagarto na boca por cem reais; no outro canal, o “jogador” precisa acertar o sexo da pessoa: será homem ou será mulher? O apresentador se refere aos personagens com termos chulos: veadão, bichona, gilete. O público – recrutado nas periferias – aplaude. Para atrair audiência, vale tudo. Pessoas submetidas a situações humilhantes e constrangedoras, desde levar uma torta de merengue na cara até rastejar implorando perdão, em grãos de milho. E tais expedientes são comuns a todos canais, até os supostamente críticos, como o do Supla. A banalização do papel da mulher na sociedade, está além de uma máquina de sexo, é um jogo de frutas, a mulher melancia não tem cérebro, tem bunda.
Padres, agora, parecem incorporar as práticas dos pastores evangélicos. E tudo vira sedução e magia na telinha do encantamento e da bestialidade.
Quem quer se enganado, sempre acha alguém para enganá-lo. Maquiavel sempre foi o cara.
Vi que a morte trágica de uma criança colocou Santiago em destaque estadual. Como a notícia ruim vende bem. As centenas e milhares de crianças agregadas e orientadas para a vida pelo Projeto Criança Feliz nunca foram destaque, até porque muitas delas estão trabalhando e construindo suas vidas, mas bastou uma morte e lá estamos nós nos noticiários.
Essa é a lógica do mercado de comunicações. Venda, público, audiência. Sou um ser em descompasso com a sociedade e meu tempo; fico doente quando vejo os índices de audiência da TV Escola.
Não sei bem para onde evoluímos, se é que evoluímos. O certo é que a sociedade concorrencial, com seus valores capitalistas, onde tudo tem um preço e onde tudo é suscetível de ser avaliado nesse maldito mercado, reduziu os valores humanistas a cifras, cifra$, sim, cifra$. Enfim, uma sociedade bestializada, que tem orgasmos com shows explícitos de sadismo televisivo, não poderia produzir valores que não fossem afetos à mercantilização de tudo. E é em nome de trocados, apenas em função do poder das unidades monetárias que nos destruímos barbaramente; e esse processo destrutivo perpassa do Estado ao indivíduo/indivídeo. Enfim, tento entender que somos todos produtos e mercadorias numa intrincada simbiose. E nessa, perdemos todos nossos referenciais éticos afetos à decência, ao humanismo, à solidariedade. Pessimista? Sim, sou pessimista com relação ao futuro, embora apaixonado pela vida presente nesse momento.
Eu vou em frente, me permitindo pensar que a utopia não pode ser assassinada de um todo. E com os fragmentos de sentimentos que ainda restam aos meus olhos, vou indo, tateando espaços incertos, descortinando o véu obscuro das relações interpessoais e tentando ver onde está a síntese do que somos.