Lembro-me bem, eu tinha 27 anos, quando tive contato com a professora Marilena Chauí e – acreditem ou não – foram às influências autonomistas que deram a primeira grande sacudida na minha formação.
Tarde, reconheço, percebi-me de que era importante sacudir o velho beabá marxista ortodoxo e conhecer um pouco de tudo. Desconhecia o básico do básico, afinal tinha sido educado a desprezar o budisno, o bramanismo, comparava o Rigveda ao hinário evangélico e sequer tinha ouvido falar no Upanishades. A Índia, assim como a China com o taoísmo e Confúcio com seu Lun-Yu, recebiam meu absoluto desprezo.
A gente sabia por alto o que era o período ante-socrático, socrático, mas eu achava a escola jônica com seus problemas cosmológicos – ar, água, fogo e terra – uma piração, embora a ressalva simpática que aprendi fazer a Heráclito de Êfeso, que era uma espécie, digamos assim, de bisavô das leis da dialética com suas formulação sobre o eterno movimento e a passagem das coisas.
Meu desprezo ignorante por Pitágoras e a Escola Itálica era reforçado pela péssima formação matemática que tive nos colégios de Santiago. E nem vou falar na eleática, atomística e nos sofistas. Para o nosso beabá tudo começava com Sócrates e éramos todos maiêuticos. Aceitávamos bem Platão e Aristóteles, mas nada de escolas pós-socráticas, a peripatética, epicurismo, estoicismo...
Então, ao tomar consciência de tudo isso, aos 27 anos, decidi voltar atrás. Primeiro, comprei um dicionário de Filosofia, Nicola Abbagnano, o qual carrego até hoje. E fui atrás de tudo o que pudesse me acrescentar alguma coisa, sem preconceitos.
Tudo o que fazia ou fiz até então era fruto do meu voluntarismo, busca livros por conta, comprava dezenas de livros por mês. Talvez, ao cabo de 20 anos ou mais, consegui sistematizar tudo isso, pelo menos na minha cabeça. Tenho resumos de filosofia, feitos à mão, guardados até hoje. Com eles me oriento e consulto-os com uma certa periodicidade.
Na noite passada, pensei em produzir um texto sobre o ano 5.770 do povo judeu, que estava fazendo a virada; nada mais justo, ano novo, do que aproveitar a festa da noite para produzir um artigo. Eu tenho uns 500 envelopes pardos, tamanho ofício, onde catalogo os assuntos que me são relevantes. Sobre Filosofia tenho exatamente 30 envelopes e dentro deles simples anotações manuais. Tal é a importância que dou ao povo judeu que separei num desses envelopes meus resumos sobre a filosofia judaica. E misturei Baruch Spinoza com Averroes (de propósito) e anotei nomes, livros, época, o que pensavam ... Moisés de Maimônides, Sadia e Fayoum, Isaac Israeli.
Por volta das 2 horas da manhã, vou nos meus envelopes e cadê o envelope sobre filosofia judaica. Nada, nada, nada, abro caixas, rompo fitas, reviro envelopes e nada. Fico inconformado, especialmente por que minha intenção era escrever sobre o livro Guia dos Perplexos, de Moisés de Maimônides e Isaac Israeli. Era minha fórmula, dentro da realidade de Santiago, de registrar a chegada do ano judaico de 5.770, já que ninguém dos nossos teóricos locais se lembrou de nada.
Bateu-me uma tristeza. Fiquei inconformado com o sumiço dos meus resumos.
Hoje, na hora do almoço, lembrei-me que, no ano passado, ao assistir um musical da Madona, cheio de símbolos judaicos e cabalísticos, fui atrás de minhas anotações para mostrar a Eliziane que alguém muito cabeça em filosofia judaica estava por traz daquela formulação musical sobre a definição de Verdade. Esse alguém era Isaac Israeli.
Não deu outra, meu envelope com as anotações sobre filosofia judaica (e Averroes junto) estava numa caixa de papéis da Eliziane, junto com materiais dos pós, textos de biologia, essas coisas todas.
Senti um alívio por dentro. Fiquei feliz. Sorri ao pegar o velho envelope amassado e rasgado com velhas anotações manuscritas. Pisei na realidade novamente, era meu chão, era uma parte de mim aquele envelope. Nos meus juízos e valores, ele representa mais que uma boiada ou que muitos hectares de terra.
Com calma, reli tudo, revisei tudo, coloquei tudo num novo envelope e guardei nas caixas de papelões que carrego comigo para onde vou quando troco de casa.
Já não mais fazia sentido escrever naquelas alturas. De qualquer forma, vale lembrar o ano de 5.770 de um povo resistente, bravo e heróico, acima de tudo.