quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

E-mail enviado ao Jornalista Márcio Brasil

Prezado Amigo Márcio:

Extremamente injusto o teu juízo sobre os escritores santiaguenses que deixaram de ir...

Primeiro, tu não estás na pele de quem sofre as discriminações dessa direção do evento. Não sabes absolutamente nada do que rola e nem dos juízos ridículos que esse senhor formula contra quem não se sujeita aos seus caprichos ditatoriais.

Raciocina comigo: eu tenho um blog, que é razoavelmente lido. Concordas com isso? Sou jornalista profissional, vivo disso e sou reconhecido pelo Estado como tal. Sou dono de um jornal, concordas com isso? Meu e-mail é conhecidíssimo de todos, nunca ninguém deixou de falar comigo por falta de acesso, concordas comigo?

Agora te digo: nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, recebi um e-mail sobre o evento...seja para eu divulgar (divulgo tudo o que me mandam) seja para eu participar, enquanto editor ou escritor.

TUDO foi e é conduzido de forma fechada, arrogante, seleta, exclusiva, com vistas a privilegiar somente a alguns. E pelo que andei sabendo não sou o único em Santiago nessas condições. Sei de outros 2 escritores locais, mas escritores mesmo, que foram solenamente ignorados, discriminados e tudo mais que tu possas imaginar.

Veja Márcio, eu fui lançar um livro. Certo? Mandei convites para os colegas de imprensa e para quem eu quisesse que lá estivesse. Não me lembro de ter discriminado alguém da imprensa...nem mesmo este tal Pasine (a quem também enviei convite). Esse é o procedimento correto. Ninguém pode se enfiar sem ser convidado. Concordas? Como eu nunca fui convidado, como nunca recebi um e-mail (nem a título de notícia), Márcio, é extremamente injusta tua crítica contra os que não foram.

Esperava que tu, democrata que eu sei que és, fosse pugnar pela inclusão e não pela apologia aos caprichos excludentes. Faz-se uma panelinha, restringem a cultura a um clube de amiguinhos e amiguinhas, só bolinha e luluzinha, e ainda têm-se coragem de criticar os que vocês mesmos excluem.

Márcio, se eu fosse convidado, iria. Se eu recebesse um release para noticiar o evento, daria a maior força possível, com prazer. Agora, seja justo, te põe no meu lugar.

Por alguma razão estranha à cultura, essas cabeças desejam formar um clube seleto, manipular com os interesses da cultura santiaguense, até se apropriando desse bem infungível de nossa sociedade de forma duvidosa. Duvidosa, sim, pois a legitimidade desse tipo de evento é extremamente questionável na medida em que joga com alguns, manipula com outros tantos e exclui quem pensa diferente. Isso é o fascismo cultural tomando forma em Santiago. Eu acuso isso.

Isso é horrível para a Cultura, Márcio. Esse processo de segregação, essa formação de panelinhas...a cultura em Santiago vive de guetos. Um porque não gosta da cara do outro, segrega e forma seu gueto. O outro porque não gosta das posições críticas do outro, segrega e forma seu gueto. A outra, porque não gosta disso e daquilo, segrega e forma seu gueto. No fundo, são todos egoístas, inseguros, autoritários e que entendem ser a cultura uma sujeição de pensamento e de vontade. Se eu me sujeito a pensar como o outro quer, eu presto para a cultura. Se eu penso com minha própria cabeça e não aceito sujeições de pensamento, se sou livre (como deve ver a arte e a literatura) logo eu não presto.

No fundo o que está acontecendo em Santiago, é que a liberdade de pensamento, não é aceita. Ou se pensa igual, ou não tem conversa. Querem é uma cultura de cordeirinhos, herança de um pensamento dócil e submisso.

Enquanto eu for vivo, meu amigo Márcio Brasil, quero ter o direito de pensar com minha própria cabeça. Ninguém vai pensar por mim. O dia que eu morrer, aí cada um inventa o que bem quiser. Mas com certeza, todos saberão que fui um homem livre, com sou livre, e por ser livre numa acepção que poucos sabem entender, é que autoritários e arrogantes, masculinos e femininos, civis e militares, não conseguem conviver com essa liberdade. Para eles e para elas, a liberdade vai até o limite da sujeição ao seu próprio pensamento. Fora disso, é heresia e blasfêmia.

Pobres instituições, miséria de cultura.