
Tenho uma velha coleção da Revista Planeta. Todas dos anos 70, início dos anos 70. Cada vez que leio um desses artigos, curto-os com uma intensidade singular, aprecio cada detalhe, as construções, as teses, os raciocínios, as viagens.
Viagens? Sim, viagens, porque tudo é envolto de uma maluquice muito grande. É tudo ou quase tudo lastreado em bases metafísicas. A tese do divino aprioristicamente domina o epicentro de tudo.
De quando em vez defronto-me com contos do Cortazar e até do nosso Caio. Adoro ler as previsões dos anos 70 para os anos 2000 e seguintes. É uma graça; quase tudo errado.
Sempre que tem uma profecia, tem chute e tudo perde a seriedade. Ou são ilações bobas, forçadas, que só os tolos acreditam. Prefiro acreditar na luta de classes, no confronto socioeconômico e nas grandes contradições que cercam nossa espécie, entre elas a tentativa de compatibilizar a ganância com o cristianismo.
Sou céptico acerca do futuro. Não sou tão neomalthusiano como aparento. Não gosto dos prelúdios catastrofistas de alguns ambientalistas. Acho até que a população mundial ainda pode crescer muito. Em 1600, por exemplo, tínhamos um bilhão de habitantes. Chegamos a 1900, com 2 bilhões de habitantes no planeta terra e os atuais 6 bilhões e meio ainda não querem dizer tanto. O planeta ainda comporta muitos bilhões de pessoas.
Minha grande preocupação é com a extensão dos céus e infernos. Como botar tantas almas no inferno? Que tipo de controle e quais os juízos para a condenação? Haverão recursos dessas sentenças divinas e diabólicas?
Verdade ou mentira, a realidade é que proliferam comércios deístas. Todos brigam contra o invisível, desafiam demônios criados nas mentes e tudo vai muito bem para o bolso dos que vivem do comércio da fé.
No Haiti, a culpa é do vudu e agora em descubro que em matchu pitchu foi uma tragédia climática provocada pelas almas indígenas revoltadas.
Credo, como sou ignorante. Não entendo nada disso. Sei apenas compreender o Totó, quando me saúda festivamente. Mas não entendo nada de jogos dos Deuses, de iras e castigos. Lendo as revistas Planeta fico ainda mais céptico e vejo minha alma cada vez mais longe da salvação. Cada vez creio menos.
Ainda não sei bem o que eu faço em Santiago ou o que Santiago faz de mim. Mas acho que virei um tolo. Ou sempre fui um. Quando vejo o que vejo e descubro o que sei, fico espantado. E mergulho cada vez mais no abismo de uma crise existencial.
Talvez, talvez, talvez...ei de achar uma saída. Procuro por ela em todos os lugares. Penso enquanto leio e estou sempre maquinando. Mas ei de achar uma saída.