terça-feira, 15 de junho de 2010

No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adorno do corpo

Sábado à noite, estou sozinho, tomo chocolate quente com leite do Puitã. Sobre a bancada, minha luminária, dicionário de Filosofia de Nicola Abagnano, Politzer e os Princípios Fundamentais de Filosofia e eu tentando seguir um pequeno texto sobre Soren Kierkegaard a partir de um ensaio comparado do professor Décio Ferraz Alvim.

Estive – antes – no Posto do Batista, fiz um breve lanche a base de pão de queijo, comprei uma lingüiça para o Totó e voltei para casa.

Converso com a LIZI pelo telefone rural, peço para ouvir a Nina e estou em paz.

Instantes depois, o meu celular toca. É um amigo, grande amigo. Ele vai direto ao assunto: quer me emprestar o livro O HOMEM MEDÍOCRE, e começa a recomendar-me, “me devolve, me devolve, me devolve”.

Ele vem até minha casa. Aproveita o livro e trás também uma boa garrafa de vinho. Na pauta, reflexões sobre o sentido da vida, o significado de ter-se uma casa, um carrinho, da vida em sociedade, dos amigos ... e a sociedade santiaguense. Conversamos durante um bom tempo. E caga para as elites locais tanto quanto eu.

Quando vai se despedir, ele ainda ratifica a recomendação: “me devolve, não vai extraviar o livro, mas lê, lê com calma e não vai pirar com as coisas fortes”.

Já tinha ouvido falar muito no livro, mas nunca tinha tido a oportunidade de lê-lo. O autor, José Ingenieros, é médico, argentino, estudioso de sociologia, antropologia, filosofia e psiquiatria. Já a obra, é um ensaio sobre a natureza humana, mas um ensaio bem filosófico. O texto é provocante, bate na mediocridade da moderna vida em sociedade e reflete sobre os nossos cotidianos, nossas rotinas e nossas vidas sem ideais e sem buscas, aceitando o conformismo.

Ingenieros analisa os pequenos mundos de nossas vidas em sociedade, os mundinhos, a aceitação da vida como ela é, os costumes, os ritos sociais, e critica essa passividade ao mesmo tempo em que encaixa a crítica a ausência de busca, a ausência de desbravar novos horizontes: na verdade, ele mostra que as pessoas que aceitam a vida nessa passividade, recusam-se a sonhar.

Embora minha formação seja mais sociológica que jornalística, lembro-me bem, quando da edição número 2, de junho de 1997, Jornal A Hora, produzi um texto sobre a razão de ser da lei e nesse critiquei o abismo intransponível que se forma entre a pessoa e o Estado, abismo esse gerado a partir das leis que corporificam o Estado e – aos poucos – leis e Estado vão nadificando o indivíduo no complexo superestrutural. E conclui meu texto asseverando que o indivíduo nadificado torna-se incapaz até de sonhar em conceber a utopia de uma sociedade mais justa.

Ingenieros situa o indivíduo no contexto das estruturas sociais (acho que ele é um estruturalista) e assegura que:

Muitos nascem: poucos vivem. Os homens sem personalidade são inumeráveis e vegetam, moldados pelo meio, como cera fundida no cadinho social. Sua moralidade de catecismo e sua inteligência quadriculada, os constrangem a uma perpétua disciplina do pensamento e da conduta; sua existência é negativa como unidade social... O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é, por essência, imitativo, e está perfeitamente adaptado ara viver em rebanho, refletindo rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade.

É claro, diria até que Ingenieros faz uma baita Dialética Social ou quiçá uma Dialética psicossocial; ademais, o livro é intrigrante, provocante, cutuca mesmo. Aliás, tudo começa com o nome do livro. Mas vejamos como o autor descreve os Homens Medíocre: São rotineiros, honestos, mansos; pensam com a cabeça dos outros, condividem a hipocrisia moral alheia, e ajustam o seu caráter às domesticidades convencionais.

E cutuca:


Estão fora de sua órbita o engenho, a virtude e a dignidade, privilégio dos caracteres excelentes; sofrem, por isso, e os desdenham. São cegos para as auroras; ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio e a paixão do apóstolo. Condenados a vegetar, não suspeitam que existe o infinito, para além dos seus horizontes.

O horror do desconhecido ata-os a mil preconceitos tornando-os timoratos e indecisos; nada aguilhôa a sua curiosidade; carecem de iniciativa, e olham sempre para o passado, como se tivessem olhos na nuca.


Alma de servo, estrume social...OS MEDÍOCRES...


...São incapazes de virtude; ou não a concebem, ou ela lhes exige demasiado esfôrço. Nenhum afã de santidade consegue pôr em alvoroço o sangue do seu coração; às vêzes não praticam crimes com mêdo do remorso.

Não vivem a sua vida para si mesmos, senão para o fantasma que projetam na opinião dos seus semelhantes. Carecem de linha; sua personalidade se desvanece, como um traço de carvão sob a ação do esfuminho, até desaparecer por completo. Trocam a sua honra por uma prebenda, e fecham a sua dignidade com chave, para evitar um perigo; renunciaram a viver, ao invés de gritar a verdade em face do êrro de muitos. Seu cérebro e seu coração estão entorpecidos igualmente. Como pólos de um imã gasto.


Não vibram com tensões mais altas de energia; são frios, embora ignorem a seriedade; apáticos, sem serem previsores; acomodatícios sempre, nunca equilibrados. Não sabem estremecer, num calafrio, sob uma carícia terna, nem desencadear de indignação, diante de uma ofensa.

Quando se arrebanham, são perigosos. A fôrça do número supre a debilidade individual: mancomunam-se aos milhares, para oprimir todos quantos desdenham encadear a sua mentalidade nos élos da rotina.

Subtraídos à curiosidade do sábio, pela couraça da sua insignificância, fortificam-se na coesão do total; por isso, a mediocridade é moralmente perigosa, e o seu conjunto é nocivo em certos momentos da história: quando reina o clima da mediocridade.

Vivem uma vida que não é viver. Crescem e morrem como plantas; não necessitam ser curiosos, nem observadores. São prudentes, por definição, de uma prudência desanimadora. Se um dêles passasse junto ao campanário inclinado de Piza, afastar-se-ia, temendo morrer esmagado.

São prosáicos. Não têm ânsias de perfeição: a ausência de idéias impede-os de pôr, em seus atos, o grão de sal que profetiza a vida.

Pressentem um perigo em tôda idéia nova; se alguém lhes dissesse , que os seus preconceitos são idéias novas, chegaria a julgá-los perigosos.

No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adôrno do corpo. Se nos ouve dizer que serve para pensar, julga que estamos loucos.


São reflexões sérias, ousadas, provocantes. Servem para todos nós e para nossas vidas. Ainda dentro do espírito do livro, queria refletir sobre os ousados e os não medíocres do nosso meio social. Sei lá...esse meu amigo que me trouxe o livro quis incitar algum tipo de reflexão...conseguiu.

Acho que tudo tem a ver com o meu papel e minha relação com a sociedade santiaguense e regional. Não sei bem o que eu sou, nem sei bem para onde vou e nem sei bem o que eu significo...mas sei que provoco, cutuco, questiono, perturbo...e que bom que o blog não é indiferente, nem para a sociedade, e nem para as teses de INGENIEROS.