O quadro que se desenha, a rigor, é novo para todos nós; exceto se houver muita inteligência e lucidez para encetarmos novos desdobramentos além do que está colocado, corremos riscos.
No plano federal, nos últimos anos, comemos e bebemos nas orelhas de Luiz Carlos Heinze, que, hábil, sempre manipulou bem com a bancada ruralista e soube tirar dividendos para Santiago e região. Só que essa sua atuação se dava num contexto. O governo LULA não tinha maioria na câmara. O governo DILMA já tem maioria – e bota maioria – tanto na câmara quanto no senado, indicativo claro que o peso da bancada do agronegócio não será o mesmo que teve no governo LULA e nem Heinze será a mesma força. Ademais, pesará muito contra ele, e pesará decisivamente, suas movimentações pós-primeiro turno de apoio aberto a José Serra e suas pregações hostis à DILMA ROUSSEF.
Por outro lado, não temos novos interlocutores no campo de alianças do executivo municipal. Isso é muito complicado. Com toda a certeza, a equipe que Dilma levará consigo não será dada a fazer concessões a adversários. Ela tem uma linha de atuação muito clara e mesmo que queira fazer alguma concessão a Heinze, tipo alguma emenda para beneficiar Santiago, terá a oposição cerrada das bancadas de esquerda e centro-esquerda que lhe foram fiéis.
Ademais, pesará - ainda - muito contra Heinze o fato de que ele usufruiu de confiança e apoio do governo Lula, sempre teve seus pleitos atendidos e na hora derradeira, agiu com absoluto desdém contra o governo federal. Essa aposta cega que HEINZE fez em Serra, depois de eleito deputado federal, é muito complicada.
Por outro lado, no âmbito estadual, o PP de Santiago será muito visado, especialmente pela presença de CHICÃO na Assembléia Legislativa. A rigor, ninguém sabe como CHICÃO se comportará no âmbito do poder legislativo. Mas é sempre bom frisar que o governo Tarso será altamente popular, de esquerda, sem fazer concessões e negociações com a direita. Tarso não é Yeda, nem Brito e nem Rigotto. O PP local deve esquecer tudo o que conhecia até então.
Tarso é radical, sério e muito conseqüente ideologicamente. Já CHICÃO, estará no meio de um espectro político de direita, reacionário, anti-socialista e anti-petista. Tarso não tem a mesma posição folgada que Dilma possui com relação ao parlamento. Mas ele é uma raposa e fará maioria facilmente, mas essa maioria será buscada em primeiro lugar com o PDT, depois PTB, em último caso com setores do PMDB, mas – dificilmente – ele estabelecerá aliança política com o PP, e muito menos com quem veio do espectro pró-Dilma e Serra.
O Rio Grande do Sul viverá um período de grandes teorizações com Tarso Genro e os seus; e nisso, a bancada do PP estará cada vez mais em desvantagem. Sobre CHICÃO, a rigor, não sabemos como ele pensa em atuar no parlamento, se como oposição (já surge uma oposição raivosa dentro do PP liderada por Percival Pugina e outros) ou se adotará uma posição de situação, no que não acredito. Talvez CHICÃO – num primeiro momento – não seja nenhuma coisa e nem outra, mas quando o palco do confronto estadual desaguar no parlamento, ele terá que tomar uma posição e não terá como ficar em cima do muro o tempo todo.
Estávamos acostumados com Marco Peixoto e sua velha prática e seus jeitinhos. Com seu estilo, foi ótimo para Santiago e sempre soube destrancar verbas e abrir caminhos para Santiago, desde uma consulta especializada num grande Hospital até emendas estaduais. Agora, com o PP completamente por fora, o quadro será diferente. Chicão não terá as mesmas portas abertas que Marco Peixoto tinha e era beneficiado pela política estadual e governos sucessivos no Piratini.
Pode até ser que CHICÃO saiba se metamorfosear politicamente e adote uma posição ambígua, de ser governo e oposição num mesmo corpo e num mesmo espaço temporal. Habilidade ele tem, agora não sei se têm parcerias, afinidades na bancada e maleabilidade ideológica. Saídas têm, mas é uma ignomínia que nem me atrevo citar nesse blog com 6 mil leitores semanais. O jogo na Assembléia é pesado, requer alta qualificação, time preparado e uma bancada fraca, que se não acompanhar o nível do debate que o Rio Grande do Sul viverá, corre um sério risco de ser engolida pela habilidade dos que estarão dando as cartas, pois doravante haverá uma afinidade tipo sintonia fina AL e Palácio Piratini.
Por fim, não poderemos nos esquecer que TARSO tem seus interlocutores fortes em Santiago e não é do seu estilo comer na mão de adversários. Sua consulente local é Iara Castiel, amiga e conselheira, bem ao contrário de Yeda, Rigotto e Britto que conversavam diretamente com o deputado de Santiago de então, Marco Peixoto.
Esse é o quadro a partir desse domingo. Muda tudo, o PP precisará ler melhor a conjuntura, analisar bem à questão ideológica que surge, abandonar amores velhos e estabelecer novos amores, nem que sejam breves paixões.