Um dos Temas mais emocionantes em ciência política é o que nos arremete às reflexões acerca da hegemonia e do consenso.
Nesse breve post não me cabe incitar os pressupostos ideológicos que geram a formação da hegemonia, pois eles são múltiplos e derivam-se de leituras muitas vezes imperceptíveis. Da hegemonia deriva-se o consenso, embora do consenso também se derive a hegemonia. Os melhores raciocínios sobre a hegemonia foram traçados por Antônio Gramsci e tudo tem a ver com leitura que determinadas forças políticas fazem sobre os aparelhos que capitalizam as forças dentro de uma sociedade; é a ação dos aparelhos ideológicos quando controlados por um determinado bloco político.
Lênin falava em correia de transmissão e sua leitura não era tão refinada como a de GRAMSCI, que dissecou os aparelhos ideológicos (imprensa, escolas, universidades, escritores, famílias, igrejas ...) e propôs que as idéias fossem difundidas por dentro desses mesmos aparelhos.
Althusser deixou-nos um legado espetacular para compreendermos os aparelhos ideólógicos e - resguardadas as particularidades - da analogia althusseriana podemos ler e entender os aparelhos ideológicos no aspecto micro e macro, pois os pressupostos da leituras macro são os mesmos da leitura micro, o que vale dizer que as bases de formulações de um conceito, embora voltadas para um Estado, também valem para a leitura de uma situação municipal.
As pessoas comuns e o senso comum das pessoas não sabem entender e decifrar como se da essa relação de controle dos aparelhos ideológicos por um grupo político, não sabem entender como se dá a formação da opinião pública e nem como são jogadas as idéias dominantes num círculo social. A ingenuidade do senso comum primário sequer sabe entender as razões pelas quais um partido político tenta controlar uma universidade ou órgão de imprensa ou uma associação de moradores ou um sindicato.
Esses órgãos fazem a transmissão e a retransmissão das idéias, daí a importância que uma simples associação de moradores, de um sindicato ou de um jornal assume no contexto político.
Aqui no município de Santiago, por exemplo, a oposição nunca se preocupou em fazer uma leitura correta da formação da opinião pública e nunca sequer soube entender as razões do controle político do PP sobre os aparelhos ideológicos da sociedade local. Ademais, mesmo sem entender o consenso e a hegemonia reduzem tudo a uma leitura de meros nomes (nomes de pessoas). Isso é o cúmulo da burrice. O que deveria ser lido, pari passu com a interpretação das políticas públicas (aliás, muito bem geridas pelo PP), é a leitura sobre as razões do consenso e a teias que geraram esse processo hegemônico quase absoluto.
Por outro lado, se aqui baixasse um cientista social que soubesse realmente ler como se da o controle de hegemonia da sociedade santiaguense e como se formam os nossos consensos políticos, com toda certeza, ele sairia espantado, pois existe uma inversão em nossa cidade que salta os olhos. O que eu quero dizer com isso: simples, nossas grandes agências ideológicas, eu diria que quase 90% dos sindicato locais, sejam patronais ou de empregados, não são controlados pelo PP. Pelo contrário, existe até uma resistência ao PP local. A cooperativa tritícola, está sob outra influência, o mesmo valendo para o Hospital e para o asilo. A URI é o único aparelho mais significativo que ainda está sob a influência do PP, posto que a eleição recente foi alvo de uma disputa bem acirrada e CHICÃO saiu-se o grande vencedor, leia-se PP, mas é uma instituição cuja capacidade de influenciar os rumos ideológicos locais questionável, conquanto sua razão de ser, associada ao comércio da educação, têm aberto grandes focos de descontentamentos nas bases; aliás, isso é notório na expressão dos votos dos alunos no recente pleito que optaram pelo nome de Ayda Bochi, amplamente vitoriosa dentre esses. As bases não votaram em Ayda pelas propostas ou por seu grupo direitista, votaram contra o monopólio da educação. Por outro lado, existem - ainda - outros focos de políticas universitárias na UNOPAR e ULBRA e esses são bem mais hostis ideologicamente ao PP que a própria e confusa oposição dentro da URI. Enquanto leitura ideológica da força dos aparelhos locais (ou agências) restam ainda dois grandes blocos de forças, as igrejas e a imprensa. As igrejas, a rigor, são em sua quase totalidade - sejam evangélicas ou católica - sabidamente atuantes contras o PP, salvo uma ou outra exceção. Quanto a imprensa, sustento que esse debate é muito incipiente em Santiago, o jornal que mais influencia a opinião pública é o Expresso Ilustrado, mas também temos que reconhecer que o Jornal é um canhão dentro da sociedade, onde granjeou amplo respeito e leitura, e por isso mesmo, é um jornal mais comercial do que ideológico. É que é necessário o contrapeso pela razão dos anunciantes. Opinativos, pautadores e formadores de opinião são os blogs. Na blogsfera, o consenso e a hegemonia todos sabem de onde parte.
É curioso mesmo, e volto ao assunto do cientista social, observar como as bases hegemônicas que sustentam o PP são instáveis e é uma grande contradição - mas bota grande nisso - a votação de CHICÃO em face da divergência que existe entre o partido e o controle das bases da sociedade.
Existem duas explicações que ainda podem justificar esse controle político/partidário sem controle ideológico. A primeira delas, é que a oposição local, por ser burra, nunca questionou a linha dos investimentos públicos do governo federal. O PP joga pelas diretrizes federais, deita e rola como se petista fosse, e a oposição sequer sabe onde começa e onde termina essa jogada. Como nossa oposição é majoritariamente direitista e reacionária, anti-PT, contra tudo em Lula e Dilma, acaba cometendo as maiores ignomínias políticas, pois age como mosca tonta, se entender nada, apenas presa a uma crítica estéril e improdutiva. Pois enquanto vociferam, o PP anda mil anos luzes na frente, governando com tudo de bom que o PT oferece e sabendo tirar um saldo político e eleitoral disso tudo como nunca se viu na história de Santiago. A segunda delas, é que existe algo de matafísico na produção teórica de Santiago, pois apenas uma entidade segura todas as demais, pauta tudo, bate todos juntos e é a última e principal síntese de saberes acumulados dentro de Santiago. E essa, está com as pessoas do PP. Embora, ninguém saiba ler o peso de uma intervenção superestrutural - fortemente ideológica - produzindo todos os dias.
Eu respeito demais as pessoas da oposição local, mas o bloco das oposições, a quem chamo reiteradamente de burro, e mantenho as mesmas críticas, deveria ter um rasgo de lucidez se quiser voltar a respirar.
Consenso se forma na esteira da hegemonia. Em Santiago, tudo isso é discutível, inclusive as bases das raízes dos consensos, que estão sendo criadas (algumas) de cima para baixo, e, aí, portanto, nada mais frágeis. Os consensos assim se desfazem com a mesma facilidade com que se fazem. Cuidado.