quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O PMDB gaúcho e a biruta, reflexões sobre o caos partidário e razões de tantos erros

A grande manchete do Jornal Correio do Povo da edição dessa terça-feira, dia 02 de novembro, ironicamente DIA DE FINADOS, era sobre uma discussão do PMDB gaúcho acerca dos rumos a serem tomados em nosso Estado.

Desde a tragédia eleitoral do primeiro turno, ocasião em Fogaça e Rigotto naufragaram juntos, emergem muitas críticas setorizadas, análises superficiais e nenhum aprofundamento acerca das razões desastrosas.

Existem muitos motivos centrais que levaram o partido a bancarrota e penso totalmente diverso do Presidente DINIZ COGO, do PMDB local, que atribui o insucesso a mera escolha de nomes, pois – segundo ele – Rigotto teria que ter sido o escolhido e Padilha para o Senado. Ao meu ver, a questão é política e muito mais profunda. Começa que o PMDB gaúcho não soube se diferenciar de Yeda Crusius, que afundava a cada desdobramento em seu enfrentamento com os setores politicamente organizados do Estado.

O PMDB gaúcho postergou a postergação da postergação da postergação e não abriu mão de seguir mamando em secretarias estaduais. Queria ser diferente, e queria passar isso em seus discursos, mas estava profundamente entranhado no governo Yeda, com ela se parecendo em tudo. Só mesmo malandros demais que acham que o povo é bobo para não perceber essa igualdade visceral e esse oportunismo hilário de tentar apresentar-se como oposição ocupando secretarias no mesmo governo.

Para a opinião pública do Rio Grande do Sul, o PMDB não tinha mais uma cara própria, uma bandeira própria, um programa próprio, metas próprias, pois coabitava com qualquer um, vide Yeda.

Fogaça realmente aparecia melhor que Rigotto nas pesquisas em janeiro e fevereiro desse ano. Foi o que bastou para a adoção da assim chamada neutralidade tática com relação a DILMA e a SERRA. Essa bandeira de neutralidade foi a tática mais pífia da história do Partido, que entregou de mãos beijadas a prefeitura de Porto Alegre e ainda pagou o mico de uma vergonhosa derrota no primeiro turno.

Imaginar que o povo engoliria essa história, e achar-se acima do bem e do mal, especialmente quando a tradição gaúcha é de ter uma posição, seja ela qual for, isso remonta nossas raízes maragatas e chimangas, ou gremistas e coloradas, ninguém entende essa frescura de ficar neutro para ver o que é dá para ver como é que fica. De cara, viu-se que começou a entrar areia na estratégia (nessas alturas não era mais tática) e o que é pior: morreu-se agarrado a ela, quase como um dogma absoluto.

Por outro lado, existe uma discussão que é afeta as tradições de fidelidade. Nisso, o PT é o único partido que sabe dar exemplos, pois tudo é discutido em suas instâncias e o derrotado nas instâncias partidárias, aceita a incorporação dos nomes e teses vencedoras, ao final, derrotados e vencedores saem todos da mesma convenção com um único discurso. O Brasil é um país e os partidos são nacionais. Houve uma convenção nacional dentro do PMDB, com regras claras, e o grupo do sul que queria Requião, foi derrotado. Venceu, por ampla maioria de votos, a tese que defendia que o PMDB indicasse o vice de DILMA, no caso, Michel Temer, aliás, um dos advogados mais respeitados do Brasil, um constitucionalista, um dos melhores presidentes da câmara dos deputados, um homem sério, decente.

O que o PMDB do Rio Grande do Sul fez? Rasgou a tradição de fidelidade partidária (a mesma que cobravam dos outros), não apoiou e não acatou a decisão da convenção nacional, não apoiou MICHEL TEMER e começou a andar como biruta de aeroporto, cada dia tinha um discurso diferente. Conforme o humor e as loucuras de Pedro Simon, reagiam as bases, um dia estando com Dilma, outro com Serra, outro com Marina, depois mudavam, mudavam a mudança e assim foram até perceber que estavam no fundo do poço. Aí já era tarde e as urnas já tinham falado.

MENDES RIBEIRO FILHO foi o único coerente, o único que esteve sempre fiel às tradições partidárias, obedecendo o resultado da convenção e que – afinal – hoje dará as cartas junto com TEMER.

Eu acompanho a história do PMDB gaúcho e nacional não é de hoje. O mais curioso nisso tudo é que o PMDB gaúcho foi para a convenção nacional defendendo o nome de REQUIÃO. Tendo perdido, o próprio REQUIÃO passou a apoiar DILMA, fato esse que coloca em dúvidas até a honestidade das propostas de candidatura própria que o grupo defendia. Na real, na real, se sabe que esse grupo que domina o PMDB gaúcho, hoje, é reacionário, direitista, tende a se aliar com o DEM e o PSDB e as lideranças pequenas no interior não percebem a jogada.

Em suma, os erros são bem claros:

1 – Adoção da neutralidade tática, não apoiando nem DILMA e nem SERRA, foi o maior de todos os erros, pois se acharam acima do bem e do mal; com isso, feriram as tradições políticas do Estado e deram um incrível exemplo de desrespeito às decisões nacionais de um processo convencional (aliás, fazendo o que eles sempre combatiam).

2 – Não ter abandonado o governo Yeda foi fatal, pois não souberam construir um discurso diferenciado e nem apresentaram razões que justificassam a candidatura Fogaça. Não sem razão afundaram todos juntos: Fogaça, Rigotto, Padilha...

Como Mendes Ribeiro é quem vai dar às cartas e as indicações de centenas de diretorias a que o PMDB terá em seus ministérios no Estado, quero ver quem serão os primeiros a engolir tudo o que disseram. Seguirão mudando de posições ao sabor dos acontecimentos. Se Tarso chamar, muitos lá estarão e o povo ... só olhando, até a próxima eleição.