quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O triste drama do Rio de Janeiro

No distante ano de 1987, um amigo, Luiz Antônio do Nascimento Moura, à época acadêmico de Sociologia, esteve na favela da rocinha; voltando a Porto Alegre abriu um importante diálogo comigo acerca do potencial revolucionário do que ele via nas favelas do Rio. Depois, evoluiu em suas propostas, levantou a discussão internamente dentro do PT e chegou a provocar setores organizados do Partido. Lembro-me bem que o próprio Tarso, certa vez, teria censurado essas teses que defendiam a organização anárquica das forças populares incrustradas nas favelas do Rio.


Conheci as favelas do Rio no ano de 1986 e sempre tive divergências cruciais com toda essa linha moderna da antropologia e sociologia que tenta criar um jogo entre o Estado e os traficantes. Isso é óbvio e não é de hoje que existe um Estado paralelo, com leis próprias, regras próprias, execuções próprias, códigos próprios. Concordo com a tese do MR8 e seus teóricos que foi a junção do preso comum com o preso político que resultou numa incrível politização do crime, inclusive fortalecendo a noção de luta de classes entre possuídos e despossuídos.
O Rio de Janeiro, pela geopolítica, pela tradição, pela politização, têm nas relações criminosas, especialmente no tráfico, um forte ingrediente político, pois os traficantes sabem eleger as simbologias e estabelecer o confronto, demarcando um território entre os seus interesses e os interesses do Estado, representado pela repressão, pela opressão, pela polícia, pelos fuzis, pelos caveirões...

Esse caso do Rio de Janeiro, enquanto o comércio de drogas não for legalizado, vai arrastar com incrível cinismo. Existe um falso dilema. As forças de repressão do Estado parasitam dos próprios interesses do tráfico e as classes A e B, classes dominantes da sociedade carioca, são as que mais impulsionam o comércio de drogas. Uma sociedade altamente estratificada, com uma expressiva fatia da sociedade mergulhada na miséria, e outra desfrutando elevado padrão de vida, soa piada tentar impor o controle coercitivo apenas nas unidades pacificadoras. Não haverá paz nos morros cariocas.

O problema da urbanização gerou seus subprodutos e a favelização é o principal deles. O povo favelado, produto da miséria histórica, jamais vai ver com bons olhos o agente de repressão, armado e fardado. O povo vai continuar se identificando sempre com o traficante de bermudas, isso é um paradoxo, mas é um paradoxo da sociedade moderna.

Não é de hoje que eu acompanho essa situação do Rio de Janeiro e sou pessimista. Numa coisa concordo com FFHH e nisso sou tucano: defendo a descriminalização das drogas, esse comércio precisa ser assumido pelo Estado. Aí – sim – teríamos um avanço, tirando poder de marginais e enfrentando o problema das drogas de frente, de forma aberta, transparente.

Por outro lado, sou das velhas teses sociológicas relacionadas com a demografia, só o Estado pode liderar um processo de desconcentração populacional, de desfavelização. Isso é complexo, sei, sim, é complexo, mas ninguém segura as multinacionais do pó e das armas que vieram na esteira das facilidades da globalização, contando com as facilidades naturais da concentração de centenas de milhares de pessoas, numa mesma base física e ainda por cima carente, miserável e altamente concentrada por metro quadrado.  Se a geopolítica favoreceu o surgimento de favelas, cabe ao Estado - através de suas políticas públicas - apresentar soluções no campo demográfico e - inclusive - de redesenho urbano, com deslocamento de conglomerados e um novo redesenho habitacional.