Ontem, li uma nota publicada no Jornal Diário de Santa Maria e fiquei profundamente comovido pela extensão da tragédia. A simples leitura, resumindo os fatos, talvez não nos dê o alcance humano da tragédia. Tratam-se de duas vidas podres, marcadas pela insuficiência material na vida terrena e que teve um desfecho mais complexo para uma delas; trata-se do papeleiro Luiz Antônio de Freitas, que morava num casebre improvisado na beira da faixa em Santa Maria. A casa não tinha luz elétrica, não tinha água encanada, logo é fácil inferir que ele e sua companheira Maria Francisca de Oliveira viviam em meio à indignidade, pobres pessoas a que a vida material tanto priva.
A causa provável no incêndio da casa foi uma vela, a mesma vela que fazia às vezes de uma lâmpada e deve ter caído sobre as tabuinhas finas e papelões. O papeleiro não teve tempo de acordar-se e morreu queimado. Maria, escapou com vida, mas perdeu todos os seus pertences, a casa e o companheiro.
Em meio a tudo isso, eis que aparece a palavra mágica que de repente pretende transformar as vítimas em responsáveis pela própria tragédia em si mesma, como se essa tragédia não fosse responsabilidade de toda uma teia social. Estavam embriagados e nossas consciências subjetivas estão livres do peso que nos oprime por essa morte.
Nosso cinismo só é comparado ao dos que fingem não entender ou dos que relutam em não entender que a bebida é uma válvula de escape que se apresenta, um consolo em meio a miséria e uma fuga capaz de promover momentos de emoções. O discurso mais fácil é sempre responsabilizar os pobres pela bebida e não encarar as razões que o levam a bebida, pois, com certeza, a bebida é o único estimulante que ainda da à vida uma dose mágica de sobreviver em meio a tantas desgraças e privações, pois a começar que a vida num casebre de papelão, sem luz, sem um banheiro, sem água, já é um fardo quase impossível de se entender com racionalidade.
A bebida que foi a fuga do papeleiro LUIZ em vida, é a grande justificativa para a omissão da suposta civilidade social. Enterrem o corpo do Luiz, ele era um bêbado, a casa pegou fogo devido sua bebedeira. A casa do Luiz não existe mais, a Maria deve andar perambulando por outros casebres; só imagino sua dor, seu pavor, tentando metabolizar às cenas da morte, o corpo ardendo em chamas, o fogo tudo consumindo...os dramas entre os céus e os infernos, mesmo que seja tudo no plano das abstrações. O que deve estar pensando Maria nessas horas.
Seja lá o que for, ela não terá divãs, nem psicanalistas, nem uma nova casinha, terá apenas amparo espiritual numa garrafa de cachaça. Por mais duro e difícil que seja entender tudo isso, essa é a mais pura e cruel realidade que emergirá dessa vida marca pela desgraça e pela miséria. Até uma nova tragédia.