Esse domingo, eram 5.01 da manhã, e eu estava acordado. Relia um velho ensaio existencialista e estava perdido num raciocínio que envolvia Heidegger, Jaspers, Husserl e Sartre. A crítica dizia que o idealismo puro de Hegel tinha se preocupado demais com a idéia e houvera se esquecido do ser humano, que pensa e existe.
Já há algumas horas chovia forte em Santiago e não sei precisar – exatamente – que horas começou aquele temporal, mas sei que era alta madrugada. No início, era uma chuva mansa, agradável. Depois...
Estendi um colchão na sala, sempre sem lençóis, dois travesseiros velhos e fiquei lendo o livro de filosofia de Ferraz. Gosto muito dos seus esquemas didáticos, pois acabo compreendendo traços que – às vezes – a leitura crua não nos permite compreender.
Quando o temporal com chuva forte, vento e trovões começou, fui até o quarto. A Lizi dormia abraçada com a Nina e não me viu entrar. Por instantes, fiquei contemplando-as e fiquei impressionado com a estética da cena que meus olhos viam. Uma cena de rara beleza, estilizada pelo lusco-fusco das luzes que vinham da sala e se entrelaçavam com os clarões reluzentes dos relâmpagos.
Fiquei nessa posição contemplativa por alguns instantes, curti intensamente a emoção derivada da plasticidade da cena de rara beleza e satisfeito, em harmonia comigo mesmo, retirei-me para a sala. Sentei-me no chão, sobre o colchão, cobri meus pés com o velho cobertor e retomei a leitura sobre fenomenologia, essência das operações de consciência, necessidades, ideais e imaginação...
Nesse momento, noto que os vidros da sala tremiam, a porta tremia e saí na frente da casa, abri a janela e pude acompanhar um trovão que se seguia, como se não tivesse fim. Foi o maior trovão que eu já presenciei e foi o único que senti, até hoje, seus efeitos no local onde estava. Vivi assim a experiência de curtir o maior e mais intenso trovão em toda minha vida.
Por instantes, pensei que estava diante de um fenômeno metereológico distinto, mas, afinal, àquela hora da manhã, duvido que alguém tenha sentido, ainda mais sendo um domingo.
Afinal, seja lá o que tenha sido, na minha cabeça foi um longo trovão que fez com que as janelas e portas de nossa casa tremessem.
Quieto, pensei que precisava dormir um pouco, afinal eu a Lizi tínhamos planejado de acordar às 10 horas, para dar banho na Nina, preparos e perfumes, para a festa do Hospital de Caridade.
Dormi.
Às 10 horas, chovia torrencialmente e a Nina esteve consultando um dia antes, estava com febre, tinha até feito um exame de urina. Decidimos não sair com aquela chuvarada. E só perto do meio-dia, quando a chuva passou, foi que decidimos retomar os planos de ir até a festa do Hospital.
A Nina chegou lá com seu tradicional ar festivo, batendo palmas e sorrindo para todos, indistintamente.
A Lizi é uma linda mãe, representa a essência do ato materno e encarna uma simbologia perfeita com a Nina no colo, no peito, nos braços. Eu não me esqueço do ser humano, embora adore Hegel e saiba entender a extensão da estética em Soren Kierkegaard. Como não ser existencialista? Poderia ser cálido?

