domingo, 23 de janeiro de 2011

Trevas na terra dos poetas

Santiago, por iniciativa do seu Executivo, quer ser uma cidade educadora. Santiago, por força de lei, quer ser Terra dos Poetas e esse epíteto é levado ao pé da letra por algumas pessoas e entidades, entre as quais a casa do poeta, que acreditam na máxima. Louvo o direito de as pessoas acreditarem em teses e propostas, entretanto, permito-me o direito de divergir.


Quanto à decisão do Executivo, não há porque sermos contra, é um sonho, uma proposta e corre-se atrás desse ideal. No que depender do Executivo municipal, obviamente que as teses da cidade educadora vão avançar, mas será um avanço problemático na medida em que não existe na cidade um pensamento crítico, a universidade local está longe de existir; vive um distanciamento da sociedade, não tem nenhuma inserção social, não interaje com a sociedade regional e – sobretudo – por estar alinhada com a dominação, não existe nenhum sentimento crítico. A dominação de classes não é questionada, a miséria é entorpecida e não temos um debate acadêmico e nem intelectual. Pelo contrário, existe um desprezo às teorias clássicas, aos grandes paradigmas sociais, políticos e econômicos. O marxismo é a grande atualidade acadêmica do momento e suas teses econômicas estão cada vez mais fortes, gostem ou não.

Como falar em excelência e qualidade se temos um solene desprezo pela teoria?

Certa vez eu lia um artigo de um desses supostos intelectuais que querem representar a cultura de nossa cidade. Nesse artigo, ele dava o marxismo como morto, entre outros desprezos. Não se trata de concordar ou discordar, se trata de reconhecer que em oposição ao neoliberalismo as teses sociais-democratas alinhadas com o Estado de bem estar social (referência de Habbermas) nunca avançaram tanto em escala planetária como nos dias atuais. As teses do Estado mínimo entraram em bancarrota e aí estão as grandes crises nas nações desenvolvidas da Europa.

Dias atrás eu explicava para um jovem amigo que não se trata de gostarmos ou não de Marx, se trata – sim – de vermos que as grandes linhas de pesquisas em sociologia, ciências sociais, antropologia, ciências políticas, economia e até no Direito (vide o direito alternativo e a teoria dialética do Direito) um os grandes paradigmas dessas ciências é o marxismo. É claro que isso aqui na URI de Santiago eles não sabem do que se trata, então como esperar que alguém da sociedade saiba? Mas experimentem consultar as linhas de pesquisas dessas ciências, em nível de mestrado e doutorado, nas grandes universidades do país, por exemplo, na UFRGS, na USP, na UNICAMP. Ficaríamos corados com as bobagens que temos produzido e reproduzidos.

Não é porque eu não gosto do neoliberalismo que eu deixo de estudar o neoliberalismo e de reconhecer sua importância e atualidade. Pelo contrário, leio os teóricos desse sistema, tento entender suas teses, e sei muito sobre o neoliberalismo.

O que acontece em Santiago é que a despeito de não gostarmos de algo ou de alguma pessoa, estamos promovendo uma verdadeira agressão às ciências e às teorias. Pobre povo que pratica essas ignomínias, isso é o cúmulo da ignorância, uma estupidez que mancha qualquer idéia de liberdade, de arte, de literatura, de poesia, de ciências, de cidade educadora e de casa de poetas.

Precisamos não agredir o que não conhecemos. Precisamos reconhecer que existem paradigmas nos centros de excelência e vivemos à margem, por ignorância pura.

Contudo nosso erro é um erro ainda mais cruel que os que desconhecem; esses, são tratados como ignorantes pura e simplesmente, nós não, afora sermos ignorantes, agredimos o que não conhecemos. Somos ignorantes estúpidos.

É claro que se tivéssemos uma efervescência acadêmica, se tivéssemos base teórica para questionarmos os grandes paradigmas das principais ciências da atualidade, tudo bem que batêssemos nos clássicos, afinal saberíamos por que estamos batendo.
Mas, sabemos?

Eu vejo o movimento intelectual vibrante e potente que surgiu dentro da UNIJUÍ duas décadas atrás, aproximadamente, e não vejo que estejamos distantes de realmente sermos uma cidade educadora e uma terra de poeta (embora esse último seja pesado demais). Mas só vamos avançar o dia em que desenvolvermos um pensamento crítico, o dia que tivermos uma base teórica instada na universidade e na imprensa com capacidade de produzir, de se expressar, de interagir com a sociedade, de levar o conhecimento a sério e de não vilipendiar as teorias, sobretudo isso. Hoje, somos chacotas e rimos da nossa própria ignorância. Sem saber, contudo, pois nos achamos.