sábado, 5 de fevereiro de 2011

O dia em que conheci o governador Tarso, reminiscências e reflexões

Era inverno de 1984. Haveria um debate na sede do sindicato dos jornalistas, em Porto Alegre, ali na Rua dos Andradas, em cima da Panvel. Os debatedores eram Tarso Genro e o Pilla Vares. O objeto do debate: a IV Internacional. 

Conhecia o seu Adelmo Genro, santiaguense residente em Santa Maria, visitei sua casa por uma ocasião. Porém, era bem amigo do Adelminho Genro Filho, irmão falecido de Tarso, que vivia aqui em Santiago com a gurizada do PMDB de então; era vereador em Santa Maria. Tarso Genro eu não o conhecia.

Sai do gabinete do Bisol por volta das 19 horas naquele dia do debate. Primeiro, fui até o foyer do Teatro São Pedro com a Mirian Bisol (então nora do Deputado/Desembargador), tomamos um chá de maça com quindim e ficamos conversando sobre filmes. Lembro-me que o cineasta Matico estava produzindo um filme intitulado Adios General e precisava de patrocínio para a sonorização. Eu e a Mirian ficamos de abrir o jogo com o Bisol. Depois, ela foi para sua casa e eu desci a ladeira em busca do debate.

Lá chegando, encontrei um auditório frenético. Estalinistas disfarçados torciam por Tarso e todas as correntes trotskistas torciam por Pilla Vares. Era um debate parelho, ambos esgrimavam bons argumentos. Pilla Vares era formado em Direito, porém não exercia a profissão, era jornalista ligado à área da cultura (ironicamente veio a ser secretário de cultura de Tarso quando esse era prefeito de Porto Alegre). Tarso era apenas um advogado trabalhista, depois que ficamos amigos vim a conhecer a peçinha onde advogava dentro do sindicato dos bancários. Dois advogados e uma pauta palpitante; era um bom debate.

Tanto Tarso batia na IV Internacional que na hora das perguntas resolvi perguntar-lhe se era, então, necessário a criação de uma nova internacional, o que ele ficou irritado e respondeu-me a contragosto.

Foi também nessa noite que conheci Luciana Genro, sentada num cantinho, parecia concordar mais com Pilla que com seu próprio pai. Tempos depois, constatei que eu estava certo.

No final do debate conversei com Tarso, disse-lhe que era de Santiago, que conhecia seu Adelmo e o próprio Adelminho. Ele sorriu, conversamos, contei que era do gabinete do Bisol, ele deu-me seus telefones e fomos ficando amigos.

Tarso é uma pessoa muito decente e durante todo o tempo em que fiquei na assessoria do Bisol, mantivemos uma boa amizade, acompanhei-o em muitos debates, viajamos juntos e tempos depois tive a oportunidade de conhecer dona Sandra, sua esposa, médica, que tinha consultório em Novo Hamburgo. Que mulher bacana. Certa vez eu perdi uma prova de direito constitucional com o Plínio Guerra e ela deu-me um atestado dizendo que eu estava com alergia nas pernas e que não podia caminhar... Sandra era fina, polida, uma amigona.

Lembro-me muito bem, numa noite, em 1986, eu levei o Tarso para participar de um debate com o Rudi Dill, deputado do PDS, no auditório da faculdade de Direito da Unisinos, em São Leopoldo. Deu-me até pena do cara, o Tarso era um gigante no debate, rico em argumentos, rico em teoria, foi um humilhação. Ali eu percebi que Tarso iria muito longe.

Depois que o Bisol elegeu-se senador da república eu desisti de ir a Brasília e fui trabalhar com a imprensa fazendária. Mudei meus círculos de amizade, passei a me relacionar mais com meus amigos de São Paulo, onde passava a maior parte do meu tempo e fui me afastando dos meus amigos de Porto Alegre e do Vale dos Sinos.

Tempos depois, isso no ano de 1994, encontrei Tarso pela última vez. Eu havia chegado de Cuba e estava almoçando no Hotel Everest, com o Alessandre Caburé, quando Tarso chegou para almoçar com o Professor Fischer. Lembro-me que aproveitei a oportunidade para pagar-lhe um dinheiro que lhe devia, ele havia me emprestado.

Dali voltei para São Paulo, eu vivia uma profunda crise existencial, um terrível colisão de idéias, estava disposto a largar tudo e voltar para Santiago, para a Vila Florida.

Eu tinha grandes amizades em São Paulo; Pepita era noiva do meu amigo Alessandre Caburé, quatrocentona paulista, filha do então prefeito de Andradina e grande criador de gado. Ela estudava direito na Largo do São Francisco e por seu intermédio conheci um grupo muito dinâmico de jovens estudantes de direito e com eles havia um campo fértil para o debate. Naquela época eu era um louco produtor de textos, escrevia uns 4 ou 5 textos bem longos por semana, depois tirava cópias e saia distribuindo entre meus amigos e conhecidos. Imaginem se tivéssemos blogs naquela época? Enfim, cada época permite-nos uma expressão distinta.

Fiquei mais dois anos entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, até que – finalmente – atirei tudo para cima e parti para uma viagem de volta. Abdiquei de tudo e de todos, retornei a Santiago e vi que fiz a melhor coisa do mundo, entre viagens e voltas, acertos e desacertos, meu Destino estava traçado por aqui.

Qualquer hora eu volto, deixem a Nina andar...

Eu não sei bem o que houve com minha vida. Renunciei o que não me satisfazia e parti em busca do sonho. Não acredito em impossibilidade, acredito em sonhos possíveis.

Mal entendo o tempo, opero com lapsos assustadores, transporto-me e estou sempre pronto para empreender mais uma viagem. O desconhecido não me é problema, é solução. Estou aqui, mas meu coração anda pelo mundo. Sou o homem mais feliz do mundo. Duvido que alguém vibre mais diante da vida do que eu. Duvido que alguém ame mais sua filha e sua esposa do que eu.

Todas as noites sorrio feliz depois de todos aqueles afetos da Nina em cima de mim, depois daqueles beijos babados em meu rosto, depois do beijo da Lizi, o que mais posso querer e esperar da vida. A vida é louca e mágica. Em minha vida deu tudo errado e por isso mesmo, no final, deu tudo certo.

Dias desses o Clovis Brum e a delegação do COREDE estavam reunidos com o secretário estadual de planejamento João Motta. Mandei um e-mail ao Clovis e pedi para ele lembrar de mim ao João. Clovis mostrou o e-mail e João lembrou-se que morou comigo num apartamento que tínhamos ali no Centro, na Coronel Vicente, éramos um grupo de jovens idealizadores, românticos, o Tarso Genro era o avalista desse apartamento. O João ficou com ele, não sem razão virou secretário de Estado.

Outro dia, a Lizi me perguntou se eu não me sentia mal andando nesse chevete velho caindo os pedaços. Como explicar a ela que não!!!