Existe um assunto preocupante em nosso meio e pouco trabalhado. É necessário abrir um debate sobre o autoritarismo didático-pedagógico, onde professores exigem submissão dos alunos às suas vontades e onde o saber é reduzido a um jogo nojento de prepotência docente. Aprender não é repetir.
Contam nossos avós que em épocas passadas aquele aluno que não se comportasse bem em aula ou não assimilasse a matéria para a sabatina, recebia castigos em forma de suplicio: ajoelhar-se sobre grãos de milho, receber golpes de vara na palma das mãos, etc.
Entretanto, o mundo mudou; a pedagogia com Piaget e, no Brasil, com Paulo Freire, evoluiu muito. Mas algumas pessoas parecem que não acompanharam esse mudança. O castigo corporal lhes parece ineficiente, embora alguns bem que gostariam de usá-lo, então, o que fazem?
Com suas retóricas vazias e mediante técnicas pedagógicas produtoras de guardiões da ordem vigente operam de maneira muito mais econômica e eficiente. Para isso eles precisam que o aluno se sujeite às suas vontades e ao seu pensamento. Essa sujeição não é somente obtida pelos instrumentos da violência; pode muito bem ser direta, física, usar a força contra a força, agir sobre elementos materiais sem, no entanto, ser violenta. Pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, não fazer uso de armas e nem de terror e, no entanto, continuar a ser de ordem física.
E como isso se processa?
Corpos adestrados e politicamente dóceis, pensamento amordaçado pelo temor da reação institucional, inculcação de um discurso dogmático e unívoco, o fascimo didático obtém seus frutos na coação do saber e na arbitrariedade insegura das marionetes do discurso competente.
A rigidez na educação, sustentada pela força da virilidade do mestre, é a imagem encoberta de um sadismo que beira masoquismo. A pessoa reprimida, arbitrária e dura consigo mesma se arroga o direito de ser dura com os demais e se vinga neles da dor cujas emoções não pode manifestar, que deve reprimir. Não se deve sublimar o desejo de nos colocarmos na posição de que oprime, para oprimirmos. A pedagogia tradicional, mesmo a travestida com o discurso “libertador”, com sua retórica vazia e sua religião de poder, com seus comentários, suas excomunhões – o Censor Onisciente - , que deve ser amado e respeitado, traduzem, ad nauseam, inconscientes reprimidos.
O ovo da serpente tem por laboratório de produção o saber absoluto e inquestionável de mestres que não admitem contrariedade e ainda querem impor suas teses mesmo que seja com base na coação acadêmica. O aluno, ou se sujeita a repetirem o que eles querem, ou é reprovado.
Na prática, estão reduzindo o saber e capacidade criativa a um mero jogo de repetição de discursos, com os professores escondidos atrás do manto das obtusidades intelectuais, esquecendo-se que quem está limitando o saber e a história são justamente eles e suas heresias intelectuais.
Ensinar pressupõe uma disposição constante à reflexão e ao debate e disso nenhum aluno pode abrir mão, é um direito que os compete. Caso contário, seremos todos cúmplices e meros subservientes aos porões do autoritarismo didático.
Contra essas pessoas, cúmplices da ordem institucional e agentes do conservadorismo (supostamente de esquerda ) nossa meta deve ser de fazer da ação estudantil uma bandeira e arremeter tanto quanto contra os mestres fechados e autoritários, quanto contra a sociedade e os que estão de acordo com o atraso.
A esses autoritários, que entendem o saber como um jogo de submissão, só temos a dizer que apreciamos o esforço com que jactam seus vômitos curturais, mas preferimos beber em outras fontes, essas que eles sequer sabem mostrar o caminho. As suas retóricas, nosso sorriso de escárnio.
“A doutrina materialista que advoga serem os homens produtos das circunstâncias e da educação e que, por conseguinte, os homens novos serão o produto de uma nova educação, esquece que são os homens precisamente os que alteram as circunstâncias e que também os educadores precisam ser educados”. (III Tese sobre Feuerbach).