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| Geólogo Clovis Brum |
Clóvis Fernando Bem Brum é Geólogo, Mestre em Engenharia e nossa maior autoridade local em assuntos relativos a terremotos, movimento de placas e afins. Ex-diretor-geral da URI, Professor Universitário, nessa entrevista exclusiva ao Blog, ele fez uma análise, numa linguagem acessível de importantes questões geólogicas até chegar na grande dúvida de todo o santiaguense: - existe risco de terremoto em Santiago?
Leiam a íntegra da entrevista.
Professor - Essa tragédia no Japão é - até certo ponto - uma tragédia anunciada. Por que o Japão sofre tanto com terremotos e agora com esse tsunami?
Em primeiro lugar, precisamos ter claro que vivemos em um planeta dinâmico, em evolução constante, onde todos os processos estão relacionados. Aquilo que muitas vezes fazemos pensando que os outros não estão vendo pode comprometer significativamente o ambiente que vivemos.
De uma forma simplificada o nosso planeta pode ser visto como uma laranja, levemente achatada nos pólos e composta internamente por partes sólidas e líquidas que em função das altas temperaturas internas e pelos movimentos próprios do planeta (rotação e translação) estão constantemente em movimento sujeitados pela casca externa que se chama crosta ou litosfera. Esta se divide em duas partes: A crosta oceânica mais interna, menos espessa e contínua é sobreposta pela crosta continental parte mais externa e descontinua formada pelos continentes que deslizam continuamente sobre a primeira como se fossem jangadas. Assim, a localização e a configuração dos continentes vem mudando ao longo dos milhões de anos. Atualmente, estudos que levam em conta a Teoria da Tectônica de Placas, nos fazem crer que a crosta é formada por doze placas principais – porções da litosfera limitadas por zonas de convergência ou divergência – são elas: Placa Eurasiática, Placa Indo-Australiana, Placa Filipina, Placa dos Cocos, Placa do Pacífico, Placa Norte-americana, Placa Arábica, Placa Nazca, Placa SUL-AMERICANA, Placa Africana, Placa Antártica e Placa Caribeana, que podem se subdividir em placas menores e que se movimentam e interagem (colidem, afundam ou deslizam entre si) ocasionando a liberação de grande quantidade de energia que resultam nos terremotos e vulcões exatamente no limite, nas junções entre as mesmas. A velocidade com que as placas deslizam ou colidem varia entre poucos milímetros a pouco mais de 10 centímetros por ano. Pois muito bem, o Japão está situado exatamente sobre a junção de quatro placas tectônicas portanto em uma região com alta probabilidade de instabilidade crustal com o desenvolvimento de terremotos e vulcões. Para se ter uma idéia, nesta área, são registrados 20% dos sismos mais violentos do mundo. Os maremotos e/ou tsunamis estão diretamente relacionados com a proximidade do mar. A vibração da base do oceano faz com que a água se movimente de forma equivalente formando as grandes ondas. A grosso modo é como se provocássemos vibrações ou movimentos em um recipiente cheio de água.
A meu ver, sabendo que a região é altamente susceptível a abalos sísmicos de grande magnitude, aquelas usinas jamais deveriam ser construídas naquele local.
O povo Japonês é um povo inteligente e lutador, certamente o mundo saberá tirar muitas lições desse verdadeiro desastre.
Professor, esclareça para os nossos leitores os graus de intensidade na escala Richter e o que é afinal essa escala, já que a gente fala tanto nela e poucos sabem o que é?
Em qualquer parte do mundo e em qualquer evento que ocorra, a natureza humana necessita de referências para medir ou comparar acontecimentos. Nesse sentido, em meados de 1935 os sismólogos Charles Francis Richter e Beno Gutemberg, membros do California Institute of Technology após recolher inúmeros dados com um equipamento chamado de sismógrafo (registra a propagação de vibrações em gráfico semelhante a um eletrocardiograma), criaram um sistema para calcular a intensidade e a magnitude das ondas emitidas a partir de eventos como terremotos e erupção de vulcões.
Embora existam outras escalas, a escala Richter como ficou conhecida, é uma escala logarítmica e continua sendo a mais usada e conhecida no mundo.
Então, trocando em miúdos é uma escala comparativa de medidas de intensidade de terremotos. Abaixo apresentamos a mesma com uma coluna que evidencia o número de eventos registrados anualmente de acordo com a magnitude.
Uma descrição micro, por exemplo, é aquela que aquele tremos de terra que não se sente, esse ocorre em torno de 8000 por dia.
Muito pequeno 2,0-2,9 Geralmente não se sente mas é detectado/registado. 1000 por dia
Pequeno 3,0-3,9 Frequentemente sentido mas raramente causa danos. 49000 por ano
Ligeiro 4,0-4,9 Tremor notório de objetos no interior de habitações, ruídos de choque entre objetos. Danos importantes pouco comuns. 6200 por ano
Moderado 5,0-5,9 Pode causar danos maiores em edifícios mal concebidos em zonas restritas. Provoca danos ligeiros nos edifícios bem construídos. 800 por ano
Forte 6,0-6,9 Pode ser destruidor em zonas num raio de até 180 quilômetros em áreas habitadas. 120 por ano
Grande 7,0-7,9 Pode provocar danos graves em zonas mais vastas. 18 por ano
Importante 8,0-8,9 Pode causar danos sérios em zonas num raio de centenas de quilômetros. 1 por ano
Excepcional 9,0-9,9 Devasta zonas num raio de milhares de quilômetros. 1 a cada 20 anos
Extremo 10,0 Nunca registado. Extremamente raro (Desconhecido)
Professor, existe o risco de todas as populações costeiras serem ameaçadas por eventuais terremotos e tsunamis ou é tudo ficção e explorações sensacionalistas?
Sim, voltamos ao exemplo do recipiente cheio de água. O nosso planeta é coberto por água em 71%. Eventos que mecham com esse líquido podem atingir as zonas costeiras. Evidentemente correm maiores riscos aquelas regiões próximas as cicatrizes das placas (zonas de junção entre as placas) e os países com maior extensão de litoral.
Esses recentes terremotos no Chile, no Peru (que teve reflexos na cidade brasileira/acreana de Cruzeiro do Sul) no Haiti, e dias atrás houve um tremor no interior de Pernambuco não criam um quadro de instabilidade, de insegurança?
Temos a pretensão de dizer que Deus é brasileiro. Pois bem, mais uma vez o Criador em sua bondade, colocou o nosso pais exatamente no centro da Placa Sul-Americana, uma das maiores placas do planeta. Portanto, estamos na parte mais estável da jangada ao contrário dos nossos irmãos do Chile e do Peru que estão na borda da mesma e justamente para o lado do deslocamento da placa. Obviamente, sentimos e registramos diariamente no conjunto de sismógrafos instalados no pais os abalos oriundos daquela região. No entanto, embora devamos permanecer alerta, a probabilidade de grandes sismos no Brasil ainda são remotas.
Qual é a sua posição sobre o uso da energia nuclear?
Como pesquisador, penso que devemos adentrar muito mais nesse campo antes de expor às pessoas as possibilidades de acidentes incontroláveis. Além desse exemplo do Japão poderíamos citar outros famosos como nos EUA, na Alemanha e na Ucrânia que nos remetem a certeza de que ainda não estamos suficientemente preparados para esse tipo de tecnologia. Erros ou acidentes podem levar a situações incontroláveis. Portanto, sou a favor da pesquisa e contra a instalação de usinas atômicas enquanto não tivermos a certeza do controle da mesma.
Existem formas de energia limpa (solar, eólica, das marés,...) que merecem investimentos substanciais e certamente não trazem prejuízo ao meio ambiente.
Existe alguma forma de prever terremotos?
Embora os avanços tecnológicos sejam grandes nessa área, o uso da geoinformação e dos supercomputadores ainda não conseguiram detectar padrões claros que possam vir a caracterizar possíveis ocorrências. A tecnologia existente permite no entanto , a partir de imagens de satélite e modelos numéricos, apontar acúmulos de tensão e áreas mais sujeitas a ocorrência destes fenômenos além de indicar e desenvolver métodos de construção e evacuação de populações.
No Japão, por ser uma área com alta possibilidade de sismos, os cientistas desenvolveram um sistema de alerta que avisa com dez segundos de antecedência a chegada das ondas. Embora pouco, significa um avanço e muitas vezes é o tempo suficiente para as pessoas procurarem um local seguro ou menos inseguro até a chegada do tremor.
E a pergunta que todos os santiaguenses se fazem, bem como a população de nossa região: estamos numa zona a salvo de terremotos ou existe, mesmo em hipótese, o risco de sermos atingidos?
Penso que podemos viver tranqüilos. A possibilidade de terremotos e/ou vibrações prejudiciais a nossa vida e as nossas construções em nossa região é muito remota.
Aliás, como já dissemos antes os terremotos acontecem nas junções de placas e o Brasil está no centro da Placa Sul Americana e dos efeitos dos atritos entre elas.
Normalmente os tremores registrados no Brasil não ultrapassam os 3.0 graus de magnitude. O terremoto de maior intensidade registrado no Brasil foi em 1955, no Porto dos Gaúchos no norte de Mato Grosso com uma intensidade de 6.2 de magnitude. Até hoje, apenas uma pessoa morreu vítima de terremoto em nosso país. Foi na cidade de Caraibas em Minas Gerais em um terremoto de 4,9 graus que desabou 76 casas.
Quanto aos tsunamis, além de estarmos longe da costa (Santiago) estamos a uma altitude que gira em torno dos 400 metros acima do nível do mar.
Suas considerações finais, professor Clóvis Brum.
Agradeço a oportunidade de contribuir com a nossa comunidade, dirigindo-me a ela e aos milhares de leitores desse conceituado blog; tentei responder ou mesmo de alguma forma facilitar o entendimento de algumas questões que vem sendo veiculadas nos meios de comunicação muitas vezes de forma técnica e em uma linguagem distanciada do entendimento da maioria da população. Embora o tema realmente precise de explicações técnicas procurarei responder o mais próximo possível da linguagem do nosso cotidiano. A todos meu muito obrigado.
O blog agradece ao PROFESSOR CLOVIS BRUM em nome da comunidade santiaguense, regional e dos nossos leitores.
