Visando entender o caso, mais do ponto de vista jornalístico, fomos até o local, uma semana depois do acontecido.
3 horas da tarde, lá estávamos. Localizamos a parada de ônibus e ficamos procurando por manchas de sangue...nada, nada, nada. Aí decidimos entrar na localidade por uma estradinha de chão.
Logo, logo, numa terceira casa, um senhor na frente, embaixo das árvores, chama minha atenção. Paro o carro e vou até ele. Pergunto sobre o crime. Ele me olha com ar de espanto e fulmina: - o senhor é da Polícia?
Respondo que não, digo que sou jornalista; entendendo sua rusticidade vocabular, explico que sou da imprensa, que faz jornal...aí começamos a falar a mesma linguagem.
Como diria Paulo Coelho: houve uma conspiração cósmica e cai logo na frente do irmão da vítima. O nome do senhor é Flávio Cunha do Amaral (foto), irmão do peão assassinado, senhor Delmar Cunha do Amaral, 49 anos. Flávio começa a contar-nos a história, os detalhes, os pormenores, chora, as lágrimas correm. Fico sem saber o que dizer. Ele exclama: “maldito dinheiro, ele matou meu irmão por nada...” .
E segue: “eu nem posso olhar a casinha aí onde ele morava (casa de Delmar), não acredito que ele teja morto, era um homem bom, vivia trabalhando quieto...”.Mesmo sem saber o que dizer, deixo ele falar, desabafar. Sinto uma imensa piedade dele e de sua esposa. Uma dor corta minha alma.
Mas fui ouvindo, tentando encaixar as coisas, tentando descobrir algo que estivesse além dos fatos como eles foram apresentados. E creio que descobri coisas, no mínimo, curiosas. É claro, falei também com outras pessoas.
E foi assim que tudo aconteceu.
Flávio estava em casa com sua esposa, Dona Dioraci, e seu filhinho. A casa do seu irmão assassinado, Delmar, fica ao lado da sua, menos de 50 metros. Casinhas rudes, simples, muito singelas mesmo.
O dia do crime era também o dia do aniversário do filho de Flávio.
Delmar estava em companhia de um amigo que mora em Santiago. O nome desse amigo é João Carlos Garcia Cruz, a quem todos na localidade se referem como “nego Carlinhos” ou simplesmente “Carlinhos”.
No dia do crime, no final de semana passado, meio se encaminhando para o final da tarde, ambos os irmãos, Flávio e Delmar, cada um estava em suas casas.
Flávio contou-me que foi deitar-se, pois tinham comemorado o aniversário do menino e que achava que Delmar também estava deitado.
Sem saber como e nem porque, Carlinhos, o “nego” Carlinhos, entra meio apressado na casa de Delmar e avisa que seu cachorro (esse da foto abaixo) havia sido atropelado.
Imediatamente, Delmar pega um carrinho de mão e segue pela estradinha de chão que separa sua casa do asfalto, onde tem uma parada de ônibus, com uma guaritazinha.
E assim foram, Carlinhos e Delmar, esse conduzindo um carrinho de mão para transportar o cachorro que tinha sido atropelado, segundo a versão de Carlinhos.
Tendo ambos chegado até a parada de ônibus, onde existe o abrigo, Carlinhos indica-lhe o local onde estaria o cachorro atropelado, aproximadamente uns 200 metros da parada.
Só que Carlinhos desiste de ir com Delmar e fica sentado na parada. Delmar segue pelo asfalto levando o carrinho e buscando o cachorro supostamente atropelado.
Na medida em que ele se afasta, uns 200 metros de onde estava Carlinhos, surge uma camionete dirigida por um terceiro, que desfere um tiro contra Delmar. Esse primeiro tiro atinge-lhe a verilha, ele cai, mas vivo, certamente. (A foto mostra claramente o ângulo de visão de Carlinhos, visto que ela foi tirada do exato local do crime. Notem que ao fundo da foto aparece a parada de ônibus onde estava Carlinhos. Carlinhos, na parada, assistia tudo. Em tese.
Após o tiro, o assassino e motorista da camionete foge em alta velocidade. Anda alguns metros e muda de idéia. Volta até onde o corpo de Delmar estava caído, agonizando, e dispara mais um tiro. Dessa vez na nuca de Delmar.
Carlinhos, na parada, assistia tudo. Em tese. (Carlinhos estaria dentro dessa guarita que aparece aí na foto). Logo após, Carlinhos corre até a casa de Flávio, irmão de Delmar, muito confuso e assustado, e relata o acontecido.
Delmar ainda pede ajuda de um vizinho e vão até o local. Quando chega lá, seu irmão já estava morto.
Para Delmar e para os vizinhos, Carlinhos disse que foi um fazendeiro, o Dani, que mora no Carovi. Depois, em depoimento a Polícia, negou que tivesse reconhecido o assassino.
Sinceramente, o cachorro que teria sido atropelado, esse aí comigo, está um pouquinho machucado, mas coisa muito leve, nada que indique ser um atropelamento sério no asfalto, num trecho onde as pessoas andam em alta velocidade. Uma batida um cachorro pequeno, no mínimo, jogar-lhe-ía longe. O cachorro realmente ta com uma machucadura, mas acho que foi um atropelamento muito leve, se é que foi atropelamento. Achei tudo um pouco complicado. E mais, o irmão da vítima, confirmou-me que havia uma ação trabalhista do falecido contra o suspeito, que está preso, o senhor Dani. E várias pessoas confirmaram-me que Dani andava em sua camionete “pra cima e pra baixo”, como se rondando Delmar.
Achei tudo muito estranho. O cachorro já ta bom, correndo, sinal de que o suposto atropelamento não era assim tão sério. Devia ser à hora do próximo mesmo, afinal parece até que foi induzido a ir ao local onde foi assassinado, atraído e motivado pelo atropelamento seu do seu cachorrinho.
Certamente, eu tenho um outro tipo de faro, diferente do policial. Deve ser uma mistura de ranço de investigações sociológicas combinadas com o jornalismo. Aí as coisas não fecham mesmo.
Esse assassinato, com certeza seria mais uma dessas coincidências incríveis da vida. O cara sair para socorrer seu cachorro, conduzido por um amigo, que desiste no caminho de ir com ele. E ele vai ao encontro de uma terceira pessoa, que lhe esperava com uma espingarda para tirar-lhe a vida. Uma tragédia. Um crime que chocou nossa sociedade. De um lado, um peão, um trabalhador rural/braçal, pessoa humilde e de boa índole. De outro, um acusado, um fazendeiro, que – segundo as versões – estaria brabo com o peão que ousou buscar seus direitos trabalhistas sonegados.
Deve ser coisa do diabo, mas eu fiquei com a nítida sensação que Delmar foi atraído ao local do crime.