Lendo a matéria do blog do amigo Rafael, no post em que comenta a morte do tenente Marenda, a sensação que se fica é quase absurda e - agora - mais do que nunca, as autoridades civis e/ou militares precisam dar um pronunciamento contundente e explicações razoáveis à sociedade. Eu sei bem a complexidade que um assunto dessa natureza encerra. Primeiro, pode até ser "normal" a atitude dos pais e familiares do de cujus rejeitando o suicídio. Segundo, convenhamos que as causas desse caso são muito mal explicadas e não sem razão florescem teses conspiratórias com muita força, afinal tratava-se de um moço bem formado, iniciando uma carreira no oficialato, com experiência e vivência dentro de academia militar e sem causas aparentes para terminar com a própria vida.
Por outro lado, eu tenho formação jurídica e tive dois semestres, no ano de 1991, da disciplina de medicina legal. Fui aluno, em Porto Alegre, de Dick Wolff, médico e diretor - à época - do próprio Instituto Médico Legal do Estado - onde recebíamos boa parte das aulas; das lições que aprendi em medicina legal - e Dick era apontado como o maior especialista nessa área no Estado - que é muito fácil ver os indícios de suicídio ou não. Assim como é fácil identificar se existe ação forjante no caso da pólvora na mão, na forma de segurar a arma, na caligrafia de eventual bilhete (a pessoa sob coação apresenta mudanças caligráficas substanciais no traçado da letra), no corpo da vítima (se existem hematomas que indicam resistência, luta...), na cena do crime, entre outros fatores probantes que indicam uma ou outra situação.

O que chama a atenção nesse caso é que, desde logo, a tese do suicídio foi contestada e uma pessoa - em particular - sempre foi apontada como suspeita. Como eu fui o primeiro jornalista local a revelar o caso e - aliás - a cobrir tudo no próprio momento - desde logo passei a receber vários e-mails, alguns contendo até eventuais pistas para eventual elucidação de uma versão. Confesso que não quis prosseguir dando destaque ao caso, especialmente pela complexidade e também porque confio - honestamente - no trabalho pericial e é preciso aguardar as conclusões e/ou uma manifestação das autoridades.
Falando nisso, estava mais do que na hora de tudo ser passado a limpo. O comando militar local, sempre tão cioso em dar transparência aos seus atos, não pode mais seguir negando a inquietação que existe dos praças, suboficiais e oficiais contra determinado comando militar, questionado incessantemente. Não adiante tapar o sol com a peneira. Existem acusações de que o tenente Marenda foi assassinado. E pior do que isso: todos sabem, em Santiago, a quem acusam e de quem suspeitam. Só o comando militar é que se faz de louco e insiste em negar às vozes que brotam de dentro da própria caserna para a sociedade.
Por outro lado, esse quadro de incertezas, dúvidas, questionamentos e até insegurança não pode e não deve prosperar. Se as autoridades que cuidam do caso têm certeza que se trata de suicídio, que se expliquem perante a sociedade, que coloquem sua versão na imprensa de forma clara e contundente, até para exorcizar todas as dúvidas. E também para inocentar sobre quem pairam as dúvidas e suspeitas.
O que não pode prosperar e nem devia ter chegado onde chegou é esse quadro de a família contratando criminalista e colocando em dúvidas todo o emeranhado conduzido pelas autoridades. Nessas alturas, a confusão é grande. E a inquietação ainda maior.