Vejam trechos desse e-mail que recebi de um covarde direitista escondido no anonimato:
“...só em Santiago não notam as bobagens sem pé e sem cabeça que tu escreves, como essa de dizer que é 100% Jesus Cristo e ao mesmo tempo ateu...sendo Ele filho de Deus, como pode alguém concordar com sua obra e negar a Deus, que é o Pai...”.
Vamos por etapas. Primeiro, eu não pedi opinião e nem peço para ninguém ler o meu blog, o ideal até é que certas pessoas nem leiam-no mesmo. Eu não escrevo para imbecis. Segundo, é incrível o mecanicismo das construções dos raciocínios das pessoas. Elas acreditam que as premissas de suas construções discursivas são verdadeiras, universais e únicas. A partir desse juízo de entendimento, acham-se do direito de atacar a tudo e a todos, inclusive os que pensam diferente.
Em função do Natal e em respeito aos cristãos, que sequer sabem por que se dizem cristãos, vou tentar contextualizar o assunto sob 2 enfoques: 1 – de ciência política e o outro 2 – sob o enfoque da sociologia das religiões e demografia.
Quanto anos mesmo tem o cristianismo? Dois mil e alguma coisinha. Isso não é nada, em termos históricos, se pensarmos que os primatas têm 32 milhões de anos. Da mesma forma, se pensarmos que o a evolução do homo habilis, que deu origem ao homo erectus (homem de pé) tem cerca de 2 milhões de anos. Aliás, desses 2 milhões de anos até 15 mil anos atrás a Terra viveu a era glacial, ou como muito dizem, a era do gelo. E é do frio que surge o homem de neanderthal, uma evolução do homo erectus. É sabido, ademais, que o homem de neanderthal travou relacionamento com outra espécie mais evoluída, o homo sapiens (nós aí ó) que surgimos – mais ou menos na região da África, há cerca de 200 mil anos.
As primeiras organizações sociais, rudimentares, viviam da caça e da coleta, em bandos, pegando raízes, às vezes pescando...E em busca dos alimentos, os homens eram nômades.
Um detalhe importantíssimo, e que muitos desconhecem, é que a agricultura foi responsável pela fixação do homem num determinado local. E a agricultura surgiu, mais ou menos, há cerca de 10 mil anos atrás, na Mesopotâmia.
É a partir desse período de fixação e paragem que começa uma história interessante na escolha do líder de uma determinada organização social. É claro que o assunto é bem anterior. Mas é importante entender que critérios norteavam essas escolhas. O líder (rei, faraó...o nome aqui não importa) já foi o mais bravo e o mais guerreiro. Já foi o mais sensato e mais ancião.
A ciência política trabalha com detalhes essa origem de escolha e eventual aceitação e/ou contestação. Registra-se que o escolhido, primeiramente forte, belo e esbelto, deveria morrer pelo bem na nação, da tribo ... assim, a ele era dado o direito de viver um certo tempo, digamos que fosse um ano, em regalias, com direito a virgens para deflorar, com direito a fartura de alimentos...provavelmente bebidas. Era um rei que reinava por curto espaço de tempo. Depois, era sacrificado.
Com o passar dos anos, os escolhidos para morrer em nome dos deuses, foram organizando sua corte, sua burocracia e – ao invés de morrer em nome dos deuses – conceberam uma teoria de que podiam era governar em nome dos deuses. (Nem vou entrar aqui em monoteísmo ou politeísmo e nem origem do Estado) Mas a origem do poder divino dos reis vem dessa construção discursiva e dessa formulação teórica. É claro que com o passar dos anos tudo foi se aperfeiçoando, foram sendo criadas grandes cortes, é lembrar as cortes egípcias, por exemplo.
E assim “perpetuou-se” o entendimento de que os faraós, os reis ... governavam em nome dos Deuses. Pronto. Esse entendimento fez escola e passou a ser aceito ao longo de milhares de anos.
Os judeus, hábeis e inteligentes como sempre, vivendo na opressão, na escravidão...resolveram inverter essa construção discursiva e essa formulação teórica. Para contrapor aos faraós que diziam governar em nome de Deus, os judeus inventaram uma outra história, qual seja, “o nosso rei, o rei dos judeus, vai ser o próprio filho de Deus...nada de governar em nome de Deus”.
Do ponto de vista de uma formulação teórica, isso é fantástico. O nosso rei ta vindo aí e é filho de Deus.
E assim nasceu Jesus Cristo, um judeu, filho de judeu, que pregava para os judeus ...
Saulo de Tarso, que também era judeu, (os cristãos falam em Paulo de Tarso) foi quem deu uma reinterpretada na formulação teórica de cristo e abriu o leque da salvação (judia) para todos os povos ímpios que o aceitassem.
Os judeus não esperavam que Jesus Cristo fosse um pacifista, um pregador do amor, eles queriam a guerra, o confronto com os faraós, a insurreição...Cristo não era o rei que os judeus esperavam.
O catolicismo, assim, nesse contexto, é um penduricalho do judaísmo, como o protestantismo.
Agora, cá entre nós, que mal tem algum ateu concordar com os pressupostos teóricos da doutrina cristã, como a solidariedade, a igualdade, o amor, o respeito e a irmandade entre as pessoas? Eu acredito que Jesus Cristo tenha existido, foi um homem normal, como qualquer outro, só foi um líder político, só isso. Essa história de que é o filho de Deus, bem, essa história fica condicionado ao tamanho da crença de cada um e dos limites cerebrais. Eu acredito em papai noel. Outros acreditam em despachos de saravas, outros em orações evangélicas, outros em karma...
A população mundial, hoje, é de aproximadamente 6 bilhões e meio de pessoas. Só o islamismo já bate na casa dos 2 bilhões de pessoas. E temos gente pra caramba seguindo o Confucionismo, o Taoísmo, o hinduísmo, o budismo, o xintoísmo ... O problema é que cada um deles acha que suas verdades são as únicas que existem no planeta (isso é olhar o mundo a partir do nosso próprio umbigo).
A vida não é assim, gente. É burro achar que só a gente é que sabe das coisas e que todos os outros estão errados. A essência do fundamentalismo no mundo é esse mal de cada qual achar que suas verdades são universais, prontas e concluídas.
Nós conhecemos muito pouco. De um modo em geral, todos somos ignorantes. O mistério da vida é muito mais complexo do que a “síntese” que as religiões querem lhe atribuir. Não existe uma Verdade universal, única e absoluta. Nós é que criamos o absoluto e fizemos o absoluto absoluto. Mas esse absoluto não é uma mera criação humana?
Quem é que disse que Deus é o pai de Jesus? Esse senhor agressivo do e-mail é um ignorante, estúpido, que repete o que os outros ensinaram para ele e ele acredita naquilo. Só isso. E assim é tudo na vida social. Acreditamos no que nos dizem. Os evangélicos acreditam nos pastores. Os católicos acreditam nos padres. Os espíritas acreditam em seus pregadores. O pessoal da umbanda acredita nos pais de santos, nos caboclos, pretos velhos. E assim vamos indo. Eu procuro acreditar na ciência, por isso eu leio, por isso eu invisto o que ganho em livros e na busca de informação. Mas me acho pobrezinho, pequeno, limitado...queria saber mais. Acredito que o conhecimento liberta. Busco e sou curioso. Só isso.