segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

E quem não gosta de Carnaval?

por Marcelo Rocha

Todo Carnaval tem seu fim. Sei que é uma advertência inadequada nesse início das folias de Momo, mas é inevitável lembrá-la. Quando falamos de Carnaval, ninguém precisa ser um sociólogo renomado ou um acadêmico diligente para saber que esse período significa uma tolerável inversão e troca de posições. Afastados do trabalho e da identidade cotidiana, trocamos o uniforme pela fantasia. A rotina escraviza, enquanto a fantasia, de outro lado, suscita o sonho e a liberdade. Numa sociedade como a nossa, marcada pela competição contínua e a rigidez que engessa hierarquias, o carnaval é um refrigério, é verdade. Uma ofegante epidemia, diria o poeta. Mas permitam-me insistir na admoestação inicial: nem tudo termina na quarta-feira.

Além do mais, queridos foliões, o Carnaval instiga a dissolução das identidades. Podemos ser quem bem quisermos. E, sendo outro ou outros, isso implica, em última análise, o triunfo da alteridade. E aí eu quero chegar. Muitas vezes, parece que há uma imposição em relação ao Carnaval. Todos são obrigados a se divertir com as mesmas marchinhas, com os altos decibéis vindos dos carros, com as perigosas bebedeiras e com os desregramentos de toda a ordem. Sim, eu sei que esse discurso possa parecer um pouco deslocado e chato, mas o que quero dizer é que há (acreditem) pessoas que não gostam de Carnaval.

O sujeito que não gosta de samba pode ser até uma boa pessoa e talvez nem seja doente do pé. E mais: quem não curte Carnaval pode até ser bem-humorado. Saibam, queridos pierrôs e colombinas, que o riso, socialmente, é de extrema importância e não é uma invenção carnavalesca. Na antiguidade, havia um ditado latino que asseverava: “ridendo castigat mores”, ou seja, “rindo castigam-se os costumes”. O riso, portanto, pode ser também transgressor e não se apresenta apenas no Carnaval, mas na nossa postura cotidiana diante do mundo. De outra parte, há muitos foliões felizes que, trôpegos, abusam, também alegremente, da bebida e cometem violências absurdas e inaceitáveis nas ruas, no trânsito e em casa. Agora, me digam, sinceramente: que graça há nisso?

Graça mesmo existe na folia democrática e espontânea. No encontro de amigos e na celebração popular em que não há limites de idade, sexo e, principalmente, de classe social. Divertido mesmo é estar com as pessoas de que gostamos e entendermos que, para uma boa folia, não precisamos de muita coisa. Boas companhias bastam e não precisam de estímulos etílicos para ficar interessantes.

Por fim, caros foliões, vamos respeitar os que não gostam de ir atrás do trio elétrico, quem não veste abadá e os que não são afeitos à cuíca e ao tamborim. Não condenem os que não conseguem tirar o pé do chão com a axé music. A nós, do bloco do “concentra-mas-não-sai”, resta o consolo que iniciou essa conversa sincera: todo o Carnaval tem seu fim.

*Professor da Unipampa de São Borja, especial para ZH.