
Minha vida sempre foi uma constante mudança; quando descubro-me estático em alguma posição, prefiro pagar o alto preço de ser considerado "vulnerável", a transigir numa posição na qual nem eu mais estou convencido.
Sou problemático. Quando defronto-me com a necessidade de uma tomada de posição, tenho dificuldades e dores, peso tudo muito bem, mas sempre fico com lacunas, com dúvidas, com incertezas, especialmente porque muitos fatos não estão ao meu alcance, os juízos que emito e a formulações que construo, muitas vezes são imperfeitas e falhas.
O nascimento da Nina abriu uma fenda terrível em meu ser, vivo uma tremenda colisão de consciências, uma crise existencial profunda, juízos e valores em xeque.
Sempre vivi em função de um mundo ideal e de construções teóricas cuja certeza nunca tive convicção. A dialética matou um pouco minha alma em vida e a relativização de tudo me tornou um ser complicado. Sempre disse que a pessoa alienada é mais feliz, que o pragmatismo é muito mais dócil, imediato e de fácil manipulação interna.
A grande contradição que vivi nos últimos anos foi terrível. De um lado, no plano abstrato da política, sempre confiei em grandes teorizações. As abstrações ideológicas e teóricas alimentavam-me de alguma forma. Pari passu sempre vivi muito bem, mas muito bem mesmo, no plano do relacionamento inter-pessoal, as amizades que desfruto de algumas pessoas boas de coração, e cujo perfil é exatamente inverso ao mundo das abstrações. Na verdade, na real, nunca pude fazer uma ponte entre esses dois mundos. E sempre vivi a realidade do meu ser, dentro do mundo real, mas fugindo para um mundo imaginário, onde as elucubrações pautavam tudo.
Vou ser bem prático nas exemplificações. Eu identifico-me com o plano abstrato das teorizações do PT e suas construções teóricas. Em contrapartida, raros são os petistas meus amigos. Quase todos eles são pessoas difíceis, noto que não gostam de mim, noto - aliás - o quanto muitos deles me odeiam, me perseguem e fazem de tudo para prejudicar minha vida.
Já as pessoas do PP, do PMDB, do PSDB, com as quais convivo, com quem não me identifico no plano das abstrações e alucubrações teóricas, são as pessoas as quais verdadeiramente eu amo. Noto nelas pureza, bondade, ausência de maldade e muitas vezes deixei de amá-las intensamente justamente por estar com o coração e a mente voltados para um plano "matafísico", que não é meu mundo.
Em minha volta a Santiago, depois de quase duas décadas em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, foi marcada por um reencontro, o qual - hoje - pela primeira vez, escrevo de coração aberto, de mente limpa.
No PP, por exemplo, encontrei pessoas que nem sei descrever, sinceramente, tenho dificuldades em descrever, como elas conseguem ser tão boas, tão prestativas, tão amigas. Nunca tentaram prejudicar minha vida, pelo contrário, sempre estão fazendo tudo para me ajudar, para me viabilizar aqui e ali. Então, honestamente, dentro de mim, na pureza mais profunda do meu ser, como ser contra essas pessoas e como não deixar de reconhecer as virtudes do seu mundo e a extensão dos juízos valorativas de suas relações?
O que deve pesar mais? As divagações teóricas de um plano abstrato ou a realidade do meu dia-a-dia, cercado de amigos e companheiros sinceros?
Acreditem, olhando nos olhinhos da Nina, tomei a decisão que faltava tomar na minha vida. Opto, a partir de agora, por terminar dentro de mim com essa dualidade de valores e abraçar - derradeiramente - a opção por valorizar os amigos e as pessoas do meu dia-a-dia. A partir de agora não mais me interessam divagações e abstrações teóricas, ideológicas e filosóficas. Pretendo seguir minha vida noutro lugar, mas - desde já, despojado desses preconceitos que me separaram das pessoas.
Diversas pessoas me perguntaram por que é que eu não fui na coletiva e na audiência com Tarso Genro? Não pelo Tarso, mas pelas pessoas as quais não sinto nenhuma satisfação em olhar no rosto, optei por não ir; mas, e de certa forma, precipitei uma tomada de decisão: retirar meu apoio, já público, a candidatura petista. E faço isso para ser honesto comigo mesmo, pela vida de minha filha, de minha companheira, de meus amigos, e pelo futuro que passo a redesenhar para minha própria vida a partir desse momento, a partir do momento em que escrevo abertamente sobre essa crise e essa terrível colisão de consciência com a qual vivi durante muitos anos, especialmente no últimos anos.