Tendo lido a matéria com o título em epígrafe no blog do meu prezado amigo JOÃO LEMES, confesso-me em desconforto, especialmente pela decisão da Prefeitura Municipal de Santiago e sua insistência em asfaltar as ruas de nossa cidade.
Primeiro, rechaço veementemente essa conceituação teórica que tenta associar o asfalto urbano à modernidade. Admito que existem correntes urbanistas/desenvolvimentistas que tentam impingir na população esse entendimento, especialmente às ligadas a construtoras, àvidas por ganhos fáceis. Entretanto, é notório que diversas cidades europeias, cidades realmente modernas, que adotaram procedimento às avessas ao que aqui em Santiago apresentam como modernidade.
Na realidade, o asfalto é conhecido desde a Antiguidade, seja na Mesopotâmia ou na Babilônia. E esse asfalto derivado de petróleo, obtido pelo processo de refinação, sua aplicação começou em 1909. Portanto, fico a me questionar: que modernidade é essa?
Não será a mesma modernidade dos rodeios e shows countrys, uma babaquice importada do interior de São Paulo (alô leitores do Tiririca) e que gera diversões na desgraça dos animais indefesos expostos à crueldade humana?
Inventem outro conceito para modernidade.
Ademais, modernos paisagistas urbanos de grandes metrópoles (e que conseguem influenciar às administrações municipais) são vivamente contrários ao asfaltamento urbano e lideraram em países nórdicos e escandinavos movimentos pela volta dos velhos calçamentos.
Santiago não será moderna por causa de asfaltos urbanos, muito antes pelo contrário. Teerã é uma cidade quase 100% asfaltada e continuam apedrejando suas mulheres, condenando-as a chibatadas e prisões. Onde está o liame que denota modernidade associada ao asfalto? Que bases teóricas sustentam esses epítetos soltos, chavões insanos que não resistem a uma crítica mais apurada?
A Paris antiga deixou de ser moderna a despeito de não permitir construções e edificações superiores a 4 andares?
Me perdoem os supostos poetas de Santiago, a modernidade se materializa na espiritualidade (na acepção hegeliana do conceito) e não na matéria pela matéria. E o asfalto, em si só, é apenas matéria pela matéria.
A modernidade da universidade de Oxford nunca foi questionada a despeito dos seus prédios centenários, ali ali para se tornarem milenares. Aliás, às ruas de tal cidade universitária não são asfaltadas.
Asfalto é sinônimo de diversos transtornos, entre os quais vou tentar sintetizar alguns, concretamente:
1 - Nossas ruas vão se tornar pistas de corrida de automóveis e motos mais do que já são.
2 - Os asfaltamentos urbanos represam as águas das chuvas e vão gerar alagamentos como nunca vivemos em nossa história.
3 - Os processos asfálticos retêm as águas das chuvas e comprometem o escoamento natural, nem se falando no dano visível aos lençóis freáticos, na medida em que toda a infiltração natural fica comprometida.
4 - Asfaltos urbanos fazem retenção de calor e ampliam em até seis vezes o aquecimento no perímetro urbano (friso que esse é o ponto mais polêmico quanto aos índices, pois existem divergências entre os urbanistas). Embora ninguém negue que ele amplie o calor urbano na medida em que a massa asfáltica faz a retenção prolongada (de até 8 horas) dos raios solares no dias de verão.
5 - Cada vez que a CORSAN precisar cavar em sua rede subterrânea, viveremos uma sucessão de transtornos, especialmente com danos pelos buracos deixados, aliás, quem em Santiago não sabe ao que estou me referindo?
6 - Existe, ainda, o fator sócio-econômico, pois a implantação de asfaltos urbanos retira centenas de empregos de calçadistas e operadores similares e gera meia dúzia de empregos para operadores e máquinas das construtoras, fato esse - aliás - que eu sei bem, sempre pesou nas decisões de CHICÃO enquanto Prefeito com visão social e comprometida com os setores que mais dependem do poder público: os pobres. Asfaltar é jogar dinheiro no colo de construtoras ricas e abastadas. Calçar ruas é gerar empregos urbanos e promover a inclusão social.
Eu acho o Prefeito Júlio Ruivo um baita cara, um administrador fantástico, sério, aplicado, estudioso, dedicado, agora nunca consegui entender como é que ele entrou nessa canoa furada dos asfaltos urbanos. E, por fim, sejamos pragmáticos, se o povo não estivesse adorando nossa cidade, tal como o é, tal como somos, será que teriam descarregado esse monumental caminhão de votos em CHICÃO?
É claro que está todo mundo feliz e satisfeito em Santiago. A votação de CHICÃO apenas corrobora o entendinento de que a visão dele estava certa quando optou pelo não asfalto e fez a escolha pelos calçamentos. Querem melhor indicativo de que a voz das urnas?
Proclamo aos meus milhares de leitores semanais, uma reflexão e peço que me ajudem a propagar - pelo menos - essa outra visão sobre o asfalto e calçamento.
O calçamento é o charme das ruas de Santiago. Ele sintetiza nosso estilo de vida, nosso apego à ancestralidade, nossa origem, nossa veia realmente poética, nosso bucolismo, nosso amor e nosso estilo de vida urbano.
Asfaltar é descaracterizar uma identidade, afinal os calçamentos de Santiago já estão inseridos em nossas vidas, em nosso romantismo, em nossa identidade cultural e nossas simbologias.