Na feira do livro, a Eliziane quis comprar alguns livros de literatura infantil para a NINA. Na hora, eu obstei e ela pouco entendeu minha contrariedade e comprou um livro muito bonito, bem encadernado, todo colorido, intitulado 365 Histórias, da editora Bicho Esperto.
Como estou sozinho, a LIZI está com a Nina lá no Puitã, resolvi ler o livro e fiquei impressionado com a indução a que a literatura infantil faz na cabeça de uma pobre criança. Povoada de reis, de ricos e de pobres, a primeira dogmatização será a de que as diferenças de classes é algo normal, assim como a figura do rei (mesmo associada à antiguidade) será repassada já como um símbolo de poder constituído pela história. A criança que assimila aquilo como verdade já fica com a introjeção de que homens sempre mandaram e que homens foram mandados.
O conteúdo, incita inclusive ódios raciais, claro e explícito na história do FORTE SANSÃO... “o homem mais forte de sua época que vivia em Israel...protegia seu povo contra os filisteus...foi traído por uma filistéia...”(a rigor, é muito difícil até hoje saber a origens dos filisteus).
Ora, ora, ora, qualquer criança que recebe um conteúdo desses, vai querer saber quem são os filisteus, já apresentando os árabes (filisteus) como bandidos e os judeus de Israel como um povo bom. Até Dalila, por ser filistéia, é apresentada como uma traidora.
A historinha de São Nicolau também é um crime histórico contra os monstros “pagãos". É incrível, mas a parte relacionada a Cristo, aos reis magos, enfim, a essência da obra, embutida em cada suposta ingênua historinha infantil, existe um conteúdo ideológico muito forte, seja de fazer apologia aos valores do mundo cristão em detrimento da cultura árabe, a qual é vilipendiada nas entrelinhas e conclusões subreptícias
Toda nossa lógica de educação infantil é assentada na reprodução de valores de uma sociedade desigual, formada por ricos e pobres, por aqueles que mandam e os que obedecem. Do TIO PATINHAS ao conteúdo das letras musicais gaúchas (salvo raras exceções) existe uma escala que reproduz a idéia de desigualdade e somos todos preparados para a aceitação de desigualdade e a inculcação dogmática de juízos e valores atinentes a uma crença religiosa, a um modo de vida social, bem como a aceitação da diferença e da desigualdade como parte “natural” da história.
Eu não vou permitir que minha filha aprenda somente valores ocidentais e cristãos e crie-se – alienada – sem saber que existem mulçumanos, árabes, filhos de Deus, que são discriminados, açoitados, assassinados, tratados com violência e desumanidade. Vou ensinar a Nina que o mesmo respeito deve ser dado ao Alcorão, que afinal é o livro religioso e sagrado de quase 2.5 bilhões de pessoas no planeta terra (num total de 6 bilhões e meio). Como posso eu aceitar que ela já se crie desenvolvendo ódios contra outros povos?
A lavagem cerebral a que uma criança está submetida não é de fácil compreensão, pois em quase tudo está inserido a mentira, a história aos pedaços, e – sobretudo – a versão das classes dominantes e dos vencedores de um processo histórico de uma determinada época.
Eu não conheço historinhas infantis, por exemplo, que contem sobre como os homens viviam em estágios avançados na igualdade na face da terra, nem nunca vi nada que contem sobre o matriarcado, daí porque sustento que a história é contada distorcida e de forma mentirosa. As histórias partem sempre dos reis, como se os reinados já não fossem um estágio bem avançado, muito bem avançado da sociedade. Entretanto, apresentado como um começo.
É meu primeiro teste como pai da Nina querendo saber que tipo de historinhas e literatura ela vai receber.
Minha decisão está tomada: vou criar e escrever as próprias historinhas para minha filha. É simples, vou escrever uma por dia, parecidas com as historinhas dos livros, mas sem aceitar as falsificações e os ódios embutidos contra povos de culturas e religiões diferentes.