Todos os partidos políticos têm uma origem, uma raiz. Salvo uma ou duas exceções malucas, desses diminutos partidinhos de alugures, todos os demais partidos políticos têm – sim – uma origem, uma raiz, uma vertente ideológica.
Aliás, é fundamentalmente, a vertente ideológica que mais deveria pesar na hora de uma pessoa escolher sua filiação partidária. Entretanto, o que acontece, é exatamente o contrário, as pessoas entram para os partidos sem saber absolutamente nada de suas origens e nem de suas vertentes ideológicas.
Três motivos centrais inspiram-me nessa manhã. Hoje, ao ler na FOLHA DE SÃO PAULO que o Prefeito Kassab tem um plano B, que seria ligar-se ao PSB, em face de sua tentativa fracassada de criar um partido político de direita, unindo o PP, DEM e PMDB. Ora, afora vivermos nos trópicos e tudo ser possível, tal proposta é de uma maluquice sem precedentes e só pode resultar, justamente, no desconhecimento de KASSAB das raízes ideológicas dos partidos.
Dias atrás, fiquei matutando nas palavras de um amigo que me disse que não sujaria sua história de vida filiando-se a um partido de direita e que seu destino natural seria o PDT. Também, dias atrás, um outro amigo comentou comigo sobre a proposta de criação de um partido de direita, a partir de São Paulo, liderada pelo prefeito paulistano.
Em Santiago, raras são as pessoas que têm a exata noção e o discernimento do que sustento. Partido político, para eles, é como religião ou futebol...e não é assim.
No meu livro BOCA DE LOBO dissequei as raízes do PT, a origem do movimento trotskista, suas divergências internas no plano internacional com reflexos no plano nacional, o Secretariado Unificado, o Comitê pró-reconstrução da IV Internacional, a LIT...Quem não entender isso, andará sempre como mosca tonta no interior do PT, posto que essas coisas não são reveláveis. Da mesma forma, ninguém entenderá o governo Tarso Genro se não entender a origem do seu grupo, ala vermelha dissidente do PC do B, que já teve várias metamorfoses, já foi PRC, já foi POP, já foi nova esquerda, mas que é um governo formado com figuras carimbadas com a mesma origem; de João Motta, no planejamento, ao Mainardi (ambos de Bagé) o núcleo central do poder é o mesmo da RESISTÊNCIA, de Bagé a Santa Maria, nada é por acaso. É claro que não tem nada de errado nisso, eles estão na deles, errados estão os imbecis que não sabem de nada e ficam gravitando em torno de tudo o que eles dizem e propõem, desde seus epítetos, até suas formulações teóricas sobre como governar o Estado.
Os imbecis não são Raul Pont, Koutzii, Rubem Finamor ou Júlio Garcia, esses sabem muito bem o que estão fazendo, os imbecis são 99.99% dos petistas santiaguenses que gravitam em torno do que desconhecem.
O mesmo raciocínio, aliás, vale para o movimento autonomista, para o pessoal da teologia da libertação, para os grupos dispersos de origem estalinistas, dentre os quais o PCBR, o MCR, entre outros.
Bem, quem acha que o PT é único nisso, desconhece, com certeza, as raízes da social-democracia brasileira, as teses de Jaguaribe e FHC, a crítica à burocracia estatal e a análise weberiana ao Estado tentacular e partir das teorias de Guilhermo O`Donnell, que muitos confundem genericamente com os pressupostos teóricos de Pupper, Madariaga, entre outros teóricos do neoliberalismo econômico.
Com o PSB não é diferente, pois a veia anarquista nacional não só é dominante devido à invasão gaúcha de uma ala estalinista oriunda do velho PCB, de origem moscovita, e preso às raízes da III Internacional. Como, então, KASSAB quer construir um partido novo, nacional, de direita, buscando alianças com raízes essencialmente de esquerdas e ainda por cima ligado a III Internacional estalinista?
Duvido que os militantes e filiados do PPS, por exemplo, saibam como corporificou-se o movimento liderado por Roberto Freire, dissidente do dogmatismo do velho PCB e as disputas entre um partido de vanguarda e um partido de massas. Aliás, sequer sabem o que é isso.
E o que dizer do PC do B, por exemplo, que transigiu na defesa de Enver Hoxa, a cruel e assassina ditadura albanesa? O PC do B nasceu de uma crítica e uma divergência com o PCB, pois entendiam que Stálin era o cara e estavam a favor de tudo o que o ditador russo havia feito. A raiz do PC do B é essa e seus dirigentes sabem disso, só que não revelam isso...o resto são marionetes, beldades, carnaval, ignorância e samba.
O próprio PV, que muitos santiaguenses querem criar para controlar a sigla, nasceu de uma ala dissidente do PCB, pois – ao contrário desses – os verdes de hoje defendiam o em enfrentamento armado, os seqüestros, os assassinatos de opositores militares. Seria prudente lerem o Livro OS CARBONÁRIOS de Alfredo Sirkis ou O QUE É ISSO COMPANHEIRO do Gabeira. Das lideranças paulistas, como o Peninha, passando por Sirkis e Gabeira no Rio, o núcleo de poder e o comando é um só, é o mesmo, com sua origem, sua raiz...
O raciocínio não é diferente com o DEM, com o PP e com o PDT.
Com esse breve post, não quero discutir isso, assuntos complexos e que aprofundei nos meus livros; mas quero discutir é sobre o comportamento adesivo das pessoas, que, acriticamente, entram para dentro de um sistema cuja construção elas sequer sabem nada, da base ao topo.
Em Santiago, como não existe produção teórica, como nossa universidade não existe, não existe debate crítico, ninguém sabe nada de nada, somos uma legião de cegos. Às vezes, eu ligo minha lanterna, como hoje, mas nossos cegos não são só cegos, afora não quererem ver, são também inimigos das luzes as quais não compreendem.