Eu fui batizado na Igreja evangélica aos 12 anos de idade. Sou evangélico, em tese. Embora, com o passar dos tempos, fui me afastando de tudo. E as razões do meu afastamento são múltiplas, não são simples e nunca encontrei respostas e nem alguém com quem eu pudesse conversar e dirimir minhas dúvidas.
Já demonstrei em post anterior, do dia de ontem, os problemas que cercam a bíblia cristã e seu suposto universalismo. Complicado tudo isso, especialmente pelo avanço radical e maciço do islã, não só no “mundo” árabe, mas também entre povos hindu-europeus, afinal muita gente não sabe que o Irã, antiga Pérsia, não é um país árabe, embora seja – atualmente – islâmico. As leituras que faço dos sites islâmicos em língua portuguesa e francesa têm me dado uma visão muito boa do avanço do islamismo sobre a população mundial, inclusive, esse avanço é muito forte dentro dos Estados Unidos, especialmente na comunidade negra, cujo expoente maior dessa conversão é Mickey Tysson. As projeções do movimento islâmico mundial é que no ano de 2015 existam 3 bilhões de pessoas vivendo sob a influência do islamismo. Segundo eles, o Islã é o livro mais vendido no mundo e mais lido do mundo. Curioso, é que todos os pastores locais dizem a mesma coisa sobre a Bíblia, todos dizem que é o livro mais vendido e mais lido do mundo.
Dias atrás, lendo uma versão digital do livro-entrevista do jornalista alemão Peter Seewald, com o Papa Bento XVI, fiquei vivamente impressionado com a premissa colocada por Sua Santidade, pois ele tocou numa questão que julgo a mais importante de todos os tempos, qual seja, que era necessário retomar o diálogo cristão com o islã para se chegar a Deus. Em março desse ano, aqui em minha casa, tive a oportunidade de dizer a Pastora Maria do Socorro, ex-Quadrangular, que Cristo e Maomé eram 2 grandes entraves para a humanidade de aproximar de Deus. Talvez ela não tivesse entendido o que quis dizer, mas a verdade é que o planeta terra é vivamente dividido por essas duas religiões monoteístas que não abrem mãos de suas verdades, ambos estão radicalizados, os cristãos católicos e evangélicos não abrem das verdades de Cristo e os islâmicos não abrem mão das verdades de Maomé . No meio disso tudo, outra pequena religião monoteísta, o judaísmo, devido seus interesses estratégico/econômicos, manipula abertamente com cristãos ocidentais, colocando-se como povo escolhido, povo de deus, isso e aquilo, se permitindo promover crimes e atrocidades contra a população islâmica como nunca tínhamos visto antes na história recente. Nossos pastores, não conheço exceções, embalados pela manipulação midiática, endossam o discurso criminoso de Israel, apresentando as pequenas reações de islâmicos, homens bombas, como loucos, criminosos, como se o crime maior não estive sendo feito contra suas famílias, seus irmãos, seus povos pelas tropas americanas (e outros) que ocupam seus territórios e matam os seus sob a chancela de um suposto mundo cristão e ocidental, com valores de uma civilização mais avançada e capaz de querer controlar a vida de outros povos. Dias atrás, em entrevista a Rede TV, notei a lucidez de Paulo Coelho, contando porque ele se negou a apertar a mão de Tony Blair, quando esse ainda era premier inglês. A negativa do católico Paulo Coelho se relacionava com sua contrariedade a presença de tropas inglesas matando pessoas no Iraque. Faz sentido.
Bem, essa questão da complexidade mundial que divide as religiões é apenas um lado do que está envolto da bíblia cristã. Existem vários problemas outros para as pessoas que tentam entendê-la. E esses não são simples. O maior erro dos pastores atuais é aceitar as modificações que foram impostas por mais de 3 mil concílios, que afetaram significativamente os textos bíblicos. Nem falo nos problemas de grave tradução do novo testamento, pois Cristo falava em aramaico, os apóstolos falavam o hebreu, as primeiras traduções foram feitas do aramaico para o hebreu, desse para o grego e do grego para o alemão e do alemão para o português. É óbvio que um processo tradutório dessa envergadura permite graves erros, desde a história do camelo pelo fundo de uma agulha (na verdade camelo é um corda de atar grandes navios em portos) passando pelos livros que os sucessivos concílios, muitos deles na inquisição, simplesmente retiraram do corpo bíblico. O caso mais grave, ao meu ver, é o Livro de Enoque ou do Enoque etíope, que afinal devido a sua importância dá origem a cabala em Israel.
Qualquer bíblia mais velha, principalmente as protestantes, em alemão, com mais de 100 anos, contém 51 livros no velho testamento, incluindo os livros gregos. Aliás, é patético que temos duas bíblias, desde uma versão com 70 livros e outra com 46 e temos - ainda - a do tanach judeu do período talmúdico de 39 livros. E o que me dizem do livro dos jubileus, o terceiro livro de Esdras ou o primeiro Esdras grego? Essas questões nossos pastores desconhecem, assim como passam ao longo com uma crítica incerta e imprecisa, acusando tais livros de apócrifos, mas colocam no mesmo saco junto com Enoque a prece de Manasses, o testamento dos 12 patriarcas e até o livro de Macabeus.
Eu escrevi no meu livro O PAPEL DO JORNAL e volto ao assunto no meu blog, que eu tenho uma bíblia com 63 livros no velho testamento e aí o que me dizem disso tudo?
Eu creio que estudar a Bíblia, hoje, não é ler acriticamente essas versões tal e qual os comerciantes de livros nos empurram. Há muitos anos eu li o Livro de Enoque e fiquei impressionado com o traço apocalíptico, as visões e simbologias. Mas eu também leio atentamente o Alcorão, embora eu não conheça tanto desse como conheço da Bíblia, afinal o meu primeiro dicionário bíblico, presente do reverendo Olavo Nunes, patriarca da IEPOBPC, tem 32 anos e foi mais ou menos nessa época que passai a me interessar por estudos bíblicos.
Meu alcorão, uma tradução de Mansur Chalita, parece não ter grandes contestações, a exemplo da Bíblia, afinal nós – evangélicos – herdamos de Lutero todo um arcabouço católico. Essa influência das igrejas evangélicas atuais que vem dos EUA, é vivamente influência do protestantismo inglês, sendo que o ideal para entender tal processo e tal ruptura é debruçar-se sobre o livro Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus ( A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO CAPILALISTA) , de Max Weber, pois só assim os evangélicos atuais compreenderiam como interessava a legitimidade dada ao lucro e a usura fruto do trabalho, como o contexto econômico e as exigências do desenvolvimento das forças produtivas da Alemanha e na Inglaterra, principalmente, precisavam de um escopo para romper com a igreja católica que freava a expansão do desenvolvimento do capitalismo naquele momento. Só compreendendo isso é que se rompe com o romantismo de imaginar que as teses de Lutero e Calvino fossem puramente religiosas. Longe disso, elas só ganharam à proporção que ganharam porque se ajustaram a um interesse econômico maior.
Eu continuo sendo evangélico, mas profundamente incerto, sem ter com quem falar, inquieto, incompreendido, ouvindo cada bobagem sem pé e sem cabeça, casa asneira...Outra coisa que me desagrada profundamente – hoje – é essa onda direitista liderada por malucos que falam em nomes dos evangélicos, jogando esses pastores contra as pessoas. Eu sempre pensei que as igrejas cristãs e evangélicas fossem fazer a inclusão das pessoas e o que eu vejo hoje são pastores pregando ódio contra as pessoas diferente, por exemplo, os homossexuais. Levítico 20.10 manda apedrejar as mulheres adúlteras e porque mesmo se usam certos trechos da Bíblia para condenar pessoas e ignoram outros?
Será que esses pastores que pregam abertamente contra homossexuais, por exemplo, ignoram algo muito mais sério e profundo que existe por trás do ódio homofóbico, que é essa pregação Skinhead, de cunho nazista, que visa atingir outras minorias e não só homossexuais, mas também negros, ciganos, árabes, judeus, aleijados, gordos, velhos...Será que esses pastores sabem ao que estão se prestando e que ideologias estão defendendo, mesmo que inconscientemente?
Vejam um exemplo da própria Bíblia do Jesus que eu conheço e defendo:
O exemplo está em João: ‘Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério, e na Lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; e tu, pois, que dizes?"(8.4.5).
Ao que Jesus respondeu: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lhe atirar pedra." (João 8:7)
Esse Jesus e essa doutrina me agradam muito. Mas não me agrada ver pastores pregando o ódio contra árabes, contra homossexuais...O mesmo texto bíblico que usam para execrar pessoas (só porque alguns “grandões” que vivem do negócio evangélico assim o fazem), é descumprido na íntegra quando não convém aos mesmos interesses. Ou se cumpre tudo ou não se cumpre nada. É isso que eu penso. Esse Jesus é um Jesus de amor, de inclusão, de tolerância, de perdão, de afeto.
Por fim...
...Sejamos francos, Jesus era judeu e pregava para os judeus, ele nunca imaginou uma doutrina universalista. Saulo de Tarso (ou Paulo) é que é o cara, foi ele quem inverteu a lógica restritiva da mensagem de Cristo, até então voltada aos judeus, e deu-lhe uma visão mais ampla, permitindo a todo aquele que aceitasse a Cristo ter o direito de ser chamado filho de Deus(rompendo nesse momento com o Cristo puramente judeu, voltado para os judeus). Antes de qualquer coisa é preciso compreender isso.
Eu sempre pensei numa igreja que viesse para promover a inclusão, para perdoar, que fosse avessa a discriminações, que não fosse usada politicamente (alguém tem dúvidas do que o Malafaia faz?), que aceitasse as pessoas como elas são, sejam negras, brancas, prostitutas, pobres, ricos, lésbicas, gays, árabes, judeus, esquerdas, direitas...e o julgamento dessas que fosse feito por Deus e não por pastores. Isso implica em abdicar das discriminações, promover o entendimento do islã com o cristianismo (criando o respeito nem que seja na adversidade e no congraçamento às diferenças) e separando o lado religioso da malversação político-partidária, afinal a última eleição presidencial mostrou o quão triste é a manipulação que fazem com o pobre povo ignorante, usado todo a cabresto para votar nos interesses das oligarquias paulistas e mineiras, defensoras de um modelo econômico. Nem quero aqui entrar nesse debate entre neoliberalismo e social-democracia, mas quero dizer que os evangélicos desempenharam um papel medíocre, condenando o que não conhecem, aceitando pregações duvidosas e – em última instância – sendo massa de manobra, aliás, já eram massa de manobra no espectro internacional, servindo aos interesses dos falcões do Pentágono, da indústria bélica e das guerras disseminadas no mundo pelos EUA e fomentadas por Israel; agora, foram no espectro local...é muito triste ver tudo isso, especialmente para alguém como eu.
