quarta-feira, 11 de maio de 2011

Começaram-se as bondades

Na medida em que aproxima a eleição municipal de outubro de 2012, está cada vez mais aberta a temporada de bondades. A política esconde truques, segredos e maçetes que as pessoas comuns do povo não sabem decifrar. Os políticos, de olho na sedução eleitoral, estão cada vez mais simpáticos, distribuem sorrisos, abraços, simpatias, beijos e cordialidades.

Cada um ao seu modo, todos fazem política e esmeram-se para mostrarem-se pessoas simpáticas.

Tudo é previamente pensado, calculado nos mínimos detalhes. Existe uma arte de sedução eleitoral embutida em cada simpatia. Desde o andar na rua, o carro, a carona, uma cortesia, fingimento coletivo generalizado invadiu nossos corações e mentes. O sorriso, a visita familiar, a presença na feira, no velório, os elogios fáceis, tudo fazem parte das técnicas de seduções.

O sorriso é fingido, o halls para o bafo de onça, a roupa, os gestos, o corte de cabelo...tudo é sedução.

Essas pessoas nunca estiveram tão boas como agora. Aproveitem.

Ninguém mais diz o que pensa e está instituído o fingimento coletivo generalizado. Essa é magia da política, converte corações empedernidos em docilidade.

Atenção, observe. Ande pelas ruas e veja. Quem andou nesse final de semana pelo comércio do dia das mães teve uma amostra das bondades e simpatias. Impressione-se como eu e pense: puxa como esses senhores e senhoras são educados, meigos, fraternos, bons.

Onde você menos espera tem uma sedução e toda a bondade esconde segundas intenções.

Como eu me divirto e cada vez mais descubro que o povo é um exército de imbecis. Mas também vejo como a política é nojenta e como, cada vez mais, converte-se na arte de enganar. É claro que a política não é nojenta, são os políticos que a fazem nojenta.

Ninguém mais é sério e sincero. Idéias valem tanto quanto uma caixa de fósforo. Honestidade e qualificação valem tanto quanto o cocô do cachorro da madame bovary santiaguense.

Onde tem público, tem político. O bom político não perde uma junção por nada, nem que seja num baita velório.

Eu odeio saber tudo isso. Quisera ser enganado e ser feliz. Se eu fosse tolo andaria pelas ruas e acharia-me a melhor criatura do mundo com tantos abraços, tantos sorrisos e tantos afetos. Mas eu sou uma síntese entre o caos e a razão e eis-me aqui tristonho, sem sentido, negando-me a fazer parte desse mundo onde estou enfiado até o último fio de cabelo.

Estranha minha sensação. Estou dentro e estou fora.

Vivo e não vivo. Minha razão é apenas o sonolento nexo do sarcasamo. Mas - às vezes - preciso ser a pornografia política e ser explícito. Odeio o ser pornográfico. Prefiro as penunbras do erotismo, a insinuação das sombras e os jogos da sedução.

Estranho meu mundo. Páro por aqui. Sinto náuseas e o vômito é iminente. Viva a sabedoria santiaguense e nossa produção política secular é das melhores, não sem razão somos tão cínicos e cultuamos esses valores. Quem não é daqui, aprende logo. Quem é daqui, é cria da casa. Quem é daqui e morou um tempo fora, logo se recicla.

Mas sou tão cortês. Não sei ser sincero, senão mandaria tudo a merda.